HISTÓRIA THE BEATLES.

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Este na foto é o livro.

HISTORIA DOS FAB FOUR – “THE BEATLES”.

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO THE BEATLES DO CIRCULO DO LIVRO DE 1982.

Muitos já conhecem a história dos Fab Four, mas tem pessoas que gostam de ler sobre eles e há aquelas que não sabem, ganhei esse livro em 1982 é do Circulo do Livro, tenho certeza que alguém conhece esse livro, postarei junto a essa mensagem a foto do livro, escreverei algumas coisas sobre ele que acho ser informações importantes – “ Circulo do Livro S.A. – Edição Integral – Titulo do Original: “THE BEATLES” – Copyright 1980 by Rolling Stone Press – Copyright da introdução 1980 by Leonard Bernstein – Tradução: Fernando Nuno e Silvana Salerno – Licença Editorial para o Circulo por cortesia da Companhia Melhoramentos de São Paulo – Consultoria: Marianne Partridge – Diagramação: Beafeitler e Carl Barile – Arte da Capa: Andy Warhol 1980 – Fotos: Dezo Hoffmann – Composto Pela Linoart – Iimpresso e Encardenado pela Melhoramentos “

HISTORIA DOS FAB FOUR – “THE BEATLES”.

O QUE ESCREVEREI AGORA É ALGO QUE FOI ESCRITO POR “MAURICIO KUBRUSLY” NO LIVRO – “BEATLES: ainda e sempre, a mágica.

Março de 1963/maio de 1970. Duas datas: na primeira, o LP Please please me, o primeiro; na segundao disco de despedida, Let it be. No arco que une as duas , a corda da música popular permaneceu sempre tensa, em todo o mundo. Porque foi então que aconteceu a mágica dos Beatles.

Agora, mais de uma década depois, todos continuam a olhar para trás com saudade. O mais natural, é claro, é associar cada disco, cada faixa, a um determinado momento bom que ficou espetado na memória – até o maestro Leonardo Benstein, da Filarmônica de Nova York, faz isso, aqui na introdução que assina e onde confessa o óbvio: ele também é fã, a estória é muito antiga, banal – ela se volta para ele e diz: “Olha, meu amor, estão tocando a nossa canção”. E pelo mundo a fora, talvez naquele preciso momento milhares de pessoas digam exatamente a mesma coisa. E o tal “nossa canção” se torna particular, exclusivo, para cada um que ouve, lembra, se emociona. É a mágica dos Beatles.

CONTINUANDO POR “MAURICIO KRUBUSLY” – ” Mas com eles – surpresa – a coisa se revela mais ampla ainda. A lógica diz que apenas uma determinada geração deveria eleger os Beatles como trilha sonora, como aconteceu com a melhor fase de Frank Sinatra ou Elvis Presley, por exemplo.
Só que todo mundo sente saudades dos Beatles, do maestro Leonardo Bernstein (confira sua idade – ele mesmo faz questão de revelar ) aos adolescentes que até hoje compram e se deliciam com “Sgt. Pepper’s ou Abbey Road, sem falar no vovô e na vovó, os pais da juventude dos anos 60. Todos, absolutamente todos, rendidos à mágica dos Beatles.

“No Brasil, essa imortalidade está pulsando cada vez mais. Já foram compostas mais de duas dezenas de canções falando dos Beatles, sonhando com a volta impossível. Algumas homenagens, é certo, são bem compreensíveis – como a de Caetano Veloso em 1975, ao reproduzir a capa de Let it be no brasileiríssimo Qualquer coisa. Afinal, Caetano acompanhou bem de perto toda essa paixão – ele até vivia em Londres no final dos anos 60. Mas, e o pessoal do grupo 14 Bis? Na primeira faixa do primeiro disco, editado em 1979, ele se confessam ”perdidos em Abbey Road”…

Quando Paul McCartney deu a sua famosa entrevista – em 10 de abril de 1970, confirmando o fim ( e o principal dela está aqui no livro também ) – , a turma do 14 Bis não deveria ter sequer vinte anos. E deve ser precisamente essa a idade média dos garotos do grupo Fogo Fátuo hoje (amigos(as) isso em 1982 ). Portanto, quando os Beatles chegavam ao fim, eles não tinham sequer dez anos. Mesmo assim, a primeira faixa do primeiro disco deles falam de…”lágrimas de saudades dos Beatles”.
É a mágica, o encanto de um grupo que permanece imóvel, suspenso numa cápsula à prova de tempo. E não adianta reunir explicações, não importa a partir de qua ângulo – musical, sociológico ou de qualquer outra lógica. As canções dos Beatles, como o lance do mágico, brilham acima de qualquer arrazoado. Mas o que sempre esquecemos é que por trás desse brilho existiam quatro pessoas. E é isso o que este livro mostra muito bem – além das canções, isto é, da mágica, é claro”.
POR MAURICIO KUBRUSLY / JULHO DE 1982.

 

POR LEONARDO BERNSTEIN / 9 DE OUTUBRO DE 1979.
“Certa vez, há mais ou menos um ano (ou terá sido há quatro anos? será que não foi no mês passado? ), o pessoal da Rolling Stone me pediu para escrever um texto introdutório de uma 5000 palavras para uma obra definitiva sobre THE BEATLES. Topei na hora; mas isso foi na hora, e agora eis-me aqui arranjando palavras para fazerem o papel, aliás de forma inadequada, do tal texto introdutório…

“Me apaixonei pela música dos BEATLES ( e, ao mesmo tempo, por aqueles quatro caras “cum persone”) junto com meus filhos, duas meninas e um garoto, ao descobrir aquele falsete fabuloso gritado-sussurrado, aquela batida irresistível, a entonação perfeita, as letras completamente novas, a torrente schubertiana de invenção musical e a “nonchalance” tipo Danem-Se esses Quatro Cavalheiros do Nosso Apocalipse. Jamie tinha doze anos, Alexander, nove, e Nina, dois. Juntos nós vimos A Visão, em nossas formas inevitavelmente distintas (eu tinha 46 anos!), mas vimos a mesma Visão, e ouvimos o mesmo Pássaro-da-Manhã, Trombeta-do-Elefante, Fanfarra-do-Futuro. Que Futuro? Cá estamos nós, quinze anos se passaram, aquilo passou. Porém, durante uma década mais ou menos, ou ainda menos, aquilo permaneceu a mesma Visão-Clarim, cada vez mais concluente e irrefutável, mais clara, mais amarga – e melhor…

…”Talvez o mais claro, mais amargo ( e quem sabe melhor ) foi um disco chamado “REVOLVER ( pace Sgt. Pepper, Abbey Road et al.). Nesse álbum, a melhor coisa, talvez, era uma musiquinha chamada “She said she said; pensar nela, lembar-se dela traz imediatamente à memória toda a beleza daquelas Veias Varicosas Vietnamitas. As notas cicatrizavam, a letra incomodava; ou talvez fosse vice-versa. Mas alguma coisa incomodava, e alguma coisa cicatrizava, anos após ano, Rigby após Rigby, Paperbak após Norwergian, talvez expressa às últimas consequências na verdade vislumbrante e triste de She’s leaving home…

“Enquanto isso, aparecia um volume fino, de pura genialidade verbal de um ator novo, chamado JOHN LENNON: in his own write. Como se isso não bastasse para lenda, ainda havia as notas ( e a voz de sereia-sílfide) de um tal McCartney. Esses dois formavam uma dupla que incorporou uma criatividade quase nunca igualada naquela década feliz. Ringo – um ator-instrumentista adorável. George – um talento místico irrealizado. Porém, John e Paul, São John e São Paul, eram, e fizeram, e aureolaram, beatificaram e eternizaram o conceito que será sempre conhecido, lembrado e profundamente amado como THE BEATLES…

“E, se os depois foram simplesmente isso, os quatro foram O Todo. Essa interdependência deixava atônito, chapava, às vezes dava pavor; vamos mesmo precisar disso tudo Quando Tivermos 64 anos? Bem, hoje estou beirando os 64 (amigos(as) o ano é de 1979 ), e três compassos de A day in the life bastam para me sustentar, rejuvenescer, excitar meus sentidos e sensibilidades.
Nina, que tinha dois anos em 64, agora tem dezessete; e ainda na semana passada pegamos aquele livro grosso e infeliz de partituras maltiradas dos BEATLES para ficar relembrando no piano.Nós choramos, e demos pulos de alegria com as redescobertas ( She’s a woman) – só nós dois, durante horas (Ticket to ride, A hard day’s night, I saw her standing there)…
Isso foi a semana passada. Os BEATLES não existem mais. Mas esta semana ainda estou pulando, chorando, recordando uma época boa uma década de ouro, bons tempos, bons tempo…..”
POR LEONARD BERNSTEIN / 9 DE OUTUBRO DE 1979

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‎”THE BEATLES” – TEXTO DE GEOFFREY STOKES – PREFÁCIO(QUE VOCÊS LERAM) DE LEONARD BERNSTEIN –

” Em qualquer parte, os adolescentes estão sempre á procura do novo; na cinzenta Liverpool, dez anos após a Segunda Gerra Mundial, essa busca era ainda mais premente. O sentido de um objetivo comum que ligara aquele porto do norte da Inglaterra a Londres durante a ameaça nazista já se havia diluído, e, com a volta do Partido conservador ao governo, a Inglaterra tinha voltado à sua respeitável normalidade.

‎”A Liverpool “respeitável” e “normal” era uma fortaleza do provincianismo conservador, cujos teatros e restaurantes eram desengonçadas imitações de seus equivalentes londrinos. Mas uma outra cidade fervilhava dentro dessa: a da classe trabalhadora, dos galeses e irlandeses, e da política trabalhista. Finalmente, o toque internacional era dado pelas ruas do porto, onde ecoavam os sotaques de marinheiros de vários países. Essa mistura produzia uma cultura por um lado provinciana e por outro cosmopolita.

‎” Até mesmo sua música se desenvolvia à parte da de Londres, e “Maggie Mae”, tributo obsceno ao protótipo de prostituta da Lime Street, era como um hino dessa Liverpool orgulhosa. E a massa inconstante dos marinheiros americanos que eram o sustento das irmãs de Maggie também trazia sua própria contribuição musical. Dessa forma, na Liverpool da classe trabalhadora despontavam dúzias de casas noturnas dedicadas ao blues e à música country, em que músicos locais ostentavam ternos reluzentes embaixo de suas Stetson importadas.

‎”Essas bandas – com suas transcrições literais de discos trazidos por marinheiros americanos – eram a fonte primária da informação musical em Liverpool. A BBC – British Broadcasting Corporation – adotara com relutância as músicas do Tin Pan Alley, mas a Liverpool trabalhadora – talvez por espírito de afinidade – adotou a “outra” música americana.

‎” A luxuriante invenção americana chamada “rock ‘n’ eoll” varreu essa Liverpool com uma força que deixou Londres impassível. Entre os adolescentes não havia discussão; rock ‘n’ roll era seu ou sua amante, seu salvador, sua fuga.

“Para eles, chocar o respeitável não era tanto um ato político como uma alegre e despreocupada forma de autodefinição. E, como a definição era de toda uma geração, os jovens estavam com a razão: um rebelde é chicoteado; dois são chamados à ordem; milhares formam uma cultura. Quando “Rock around the clock”, de Bill Haley, agitou as paradas de sucesso britânicas em Julho de 1955, John e Ringo tinha 14 anos, Paul 13 e george 12.

‎” Por essa época, John já vinha chocando a família há algum tempo. Nascido no outono europeu de 1940, com Liverpool sob intenso bombardeio, era filho de Fred Lennon, que se encontrava no mar, trabalhando na marinha mercante. Logo depois , Fred voltava do mar, para entrar na prisão como desertor. Embora ele fosse libertado poucos meses depois, a mãe de John já encontrara outro homem e mandara o bebê para ser criado por sua irmã casada, Mimi Smith. Firmemente estabelecido nos degraus mais baixos da escada para a respeitabilidade, o tio George sustentava a família entregando leite, enquanto a tia Mimi criava John. Ou pelo menos tentava.

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Apesar dos esforços de Mimi – e uma fascinação inata pelas palavras que o levou a começar a escrever “livros” aos oito anos -, John se destacou nas aulas de gramática, sobretudo por seus punhos. Chefiava uma quadrilha de pequenos valentões que furtavam artigos em lojas, tomavam conduções sem pagar e importunavam garotas. Mesmo assim, conseguiu entrar para a Quarry Bank High School, uma instituição ainda respeitável perto da casa de Mimi. Já no primeiro ano, um professor o surpreendeu fazendo desenhos obscenos, e John foi rotulado como perturbador da ordem – rótulo esse que ele carregava com crescente orgulho e obstinação.

“No segundo ano, tendo ele treze, sua caderneta trazia estas anotações:” Caso sem solução. Comporta-se como palhaço nas aulas. Está apenas roubando o tempo dos outros alunos”. Nesse ano o tio George morreu, e Mimi caiu um pouquinho de nível, passando a alugar quartos da casa. Foi por essa época que a mãe de John entrou de novo em sua vida”.

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Julia Lennon desafiava vivamente as convenções de que sua irmã era escrava. Adorava uma platéia, e em John e seus turbulentos amigos encontrou um ótimo público. Em vez de condenar seus atos de rebeldia adolescente, como Mimi achava que ela devia fazer, Julia aproveitava as visitas que lhes fazia para incentivá-lo. (Um amigo de John recorda ter visto Julia a caminhar solenemente por uma rua cheia, com a roupa de baixo sobre a cabeça.) Foi ela quem comprou para John seu primeiro violão e lhe ensinou os poucos acordes que aprendera no banjo “.

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Tia Mimi

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Julia e John

O violão veio junto com a onda do skiffle – a música das jug-bands que assolou toda a Inglaterra em meados dos anos 50. O rei do skiffle, Lonnie Donegan, teve mais sucessos no primeiro lugar das paradas durante 1956 e 1957 que seu arqui-rival Elvis Presley. O sotaque pseudo-americano de Donegan levou Rock inland line e outros oito discos às paradas de sucesso britânicas, oferecendo uma música descomplicada e sem compromisso, muito mais fácil de imitar que o profissionalismo amplificado de Elvis.

“O skiffle, com sua percussão em tábuas de lavar roupa e contrabaixos de apenas uma corda, era, como o rock ‘n’ roll, uma afronta à música convencional. Qualquer um, é o que parecia, podia tocar skiffle. E quase todo mundo tocou.
No começo de 1956, John, armado com seu violão novo, recrutava colegas de escola para formar os Quarrymen, começando assim sua carreira musical”.

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” Embora vivessem em alojamento mantidos pelo governo, Jim e Mary Patricia McCartney experimentavam uma tênue evolução em seu nível de respeitabilidade. Jim deixara a escola aos catorze anos para trabalhar com um negócio de algodão, mas se tornara depois um vendedor que já usava colarinho branco no trabalho; Mary Patricia era uma parteira tarimbada. Os dois tinham ambições para os filhos – queriam que eles chegassem à universidade – , e o mais velho, Paul, parecia corresponder aos seus anseios “.

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“Quando começou o ginásio no Liverpool Institute, Paul se saiu bem, mas logo percebeu a grande diferença entre as aspirações de seus amigos de escola e as de seus pais. Começou então a se adaptar aos hábitos do lugar – cigarros, furtos em lojas -, mas sua inteligência e seu dom natural para escrever ajudavam-no a levar o curso com bom aproveitamento. Então, em 1956, quando Paul tinha catorze anos, sua mãe morreu de câncer “.

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O choque foi duplo. Além da funda comoção que causou na família, sua morte a desequilibrou financeiramente. Os negócios com algodão tinham caído tanto que ela passara a ganhar mais que o marido; este ficou com dois moleques para criar e um salário de apenas 8 libras por semana. Porém, de algum modo, ele conseguiu se virar para arranjar as 15 libras que custou o violão de Paul.

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” Paul já brincava de músico antes da morte da mãe, e aprendera a tocar pistão sozinho. Sempre houvera música na casa dos McCartney; antes de os meninos nascerem, Jim passava as madrugadas tocando piano com sua banda nos bailes da cidade. Mas Paul não apreciava a música de baile; como quase todos os da sua idade, estava seduzido pelo skiffle. Essa mania se espalhou quando Paul tinha catorze anos, e ele se lembra de ter ficado uma hora de almoço à porta de um teatro só para ver Lonnie Donegan. Nesse meio tempo, o canhoto McCartney aprendera a inverter as cordas do violão e já pegava os acordes de Elvis quando este começava a ombrear com Donegan nas paradas “.

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” Paul mergulhou em todos tipos de rock americano (suas versões de Little Richard aparecem nos primeiros discos dos Beatles). Embora não fosse um “Ted” de corpo e alma, começou a adotar esse estilo de adolescente briguento de rua – ajustou as calças no melhor estilo Teddy Boy e passou a pentear os cabelos à moda Pompadour de Tony Curtis. Das cinzas da morte de sua mãe, criou-se um novo Paul: um guitarrista vaidoso cujo objetivo principal não era mais a universidade, mas as garotas. Costumava ir assistir à apresentação dos Quarrymen no salão paroquial da Igreja de Woolton para ver se encontrava alguma bela garota na platéia “.

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” Em vez disso, Paul encontrou John. Na biografia oficial por Hunter Davies, Paul recorda ter – se juntado aos Quarrymen após uma apresentação. “Mostrei a eles como se tocava Twenty flight rock e ensinei a letra(…) Lembro de um cara velho cheio de cerveja se aproximando e respirando bem no meu pescoço enquanto eu tocava. “O que quer esse bêbado?”, pensei. Então ele disse que Twenty flight rock era uma das suas preferidas. Aí vi que ele entendia da coisa.”

Mais ou menos uma semana depois, através de um amigo comum, aquele velho bêbado e entendido em música convidou Paul para entrar no grupo.”

A demora ocorreu em parte porque os dois, John e Paul, frequentavam escolas diferentes, mas também porque John teve de decidir se queria se enturmar com alguém tão bom como ele – talvez até melhor. Em aproximadamente um ou dois meses começaram a compor juntos – canções bobas de amor, principalmente, com um forte sabor de Buddy Holly, mas a alquimia funcionava. Os Quarrymen começavam a se transformar nos Beatles.”

– ” O som acústico, sem amplificação, e a técnica primitiva eram do skiffle, mas o repertório tinha uma grande influência do rock ‘n’ roll. Essa mudança foi em muito devida às preferências pessoais; afinal, a primeira música que John aprendeu a tocar no violão foi “That’ll be the day”, de Buddy Holly. Mas foi também uma reação ao estado de dissolução da tradição musical popular da Inglaterra. Ao mesmo tempo que Holly se afirmava, a música, como um todo, enveredava pela crise de “relevância” que iria dividir o folk americano sete anos mais tarde. Uma tendência buscava conservar a tradição folk viva escrevendo novas canções em modos harmônicos seculares, ao passo que os skiffles mais radicais cantavam apenas as canções tradicionais.”
” Ambos os grupos, entretanto, estavam bombeando de um poço seco, e nada tinham a dizer à juventude pós-Presley de Liverpool. Assim, quando Paul, com pouco mais de um ano nos Quarrymen, trouxe um colega mais novo de sua escola para participar dos ensaios com o grupo, George Harrison apresentou-se tocando uma música instrumental americana, o rock ‘n’ roll Raunchy.”

” John e Paul, ao trabalharem suas fantasias justapostas, não conseguiam dar-lhes o máximo de vigor; George veio trazer a força que faltava. Antes de, finalmente, conseguir um emprego como motorista de ônibus, seu pai recebera o salário-desemprego por mais de um ano; a mãe se virava com os trocados que ganhava trabalhando como balconista de meio período numa quitanda das redondezas.”

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“George era, dos quatro filhos, o único que sobrevivera ao processo de expulsões de escolas, continuando a estudar: entrara para o Liverpool Institute um ano depois de Paul. Porém, mais interessado em roupas que na escola, fazia-se notar mais pelos jeans apertados e a gíria que usava. Era a baixa Liverpool em sua integridade – nenhuma tia Mimi tinha jamais lapidado seu vocabulário.
Embora os Harrison nunca tivessem muito dinheiro, quando George caiu sob a influência de Lonnie Donegan sua mãe conseguiu reservar 3 libras para comprar o primeiro violão. E ela também ficava acordada até tarde, estimulando-o quando ele achava que jamais conseguiria aprender a tocar”.

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Em comparação com os padrões de vida das famílias dos outros Beatles, os Harrison não tinham por que temer a fascinação de George pela música; embora quisessem que ele estudasse mais, reconheciam sua crescente habilidade musical pelo feito que isso constituía. Mas mesmo eles ficaram um pouco preocupados quando as incursões do rapaz pelo rock ‘n’ roll tornaram seu violão obsoleto. No entanto, assim que ele os convenceu de que precisava de um instrumento elétrico, gastaram 30 libras para comprá-lo”.

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”Ele agora tocava guitarra sem parar, deixando de lado as lições da escola. Para John, a música era apenas mais uma saída para o incontível talento que ele já fazia transbordar pelas telas na escola de arte; para Paul, era uma forma de se redefinir após a morte da mãe, que tanto o abalara. Para George, a música era…
No entanto, havia dúvidas sobre se George se encaixaria bem nos Quarrymen, John estava explorando “la vie bohema” do Liverpool Art College, e George era um Ted mal-ajambrado e de dentes tortos, com quinze anos. Mas ele sabia tocar – talvez até melhor que Paul – e, com a guitarra nas mãos, se superava. Ao aceitá-lo no grupo, Paul e John assumiam que tocar bem significava mais do que falar bem. Com ele, três quartos dos Beatles já estavam formados”.

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Em 1958, quando George se tornou um dos Quarrymen, pululava nas paradas de sucessos um tipo de música maravilhosamente exuberante (e despreocupada) que ia direto ao coração dos jovens. Buddy Holly teve quatro canções – Rave on e Peggy Sue entre elas – nas paradas de sucessos daquele ano a Grã-Bretanha; os Everly brothers tiveram duas; Fats Domino, Little Richard e Jerry Lee Lewis, uma cada; e Elvis, seis. Mas uma contra-resolução também nesse ano, e Cliff Richard, a resposta inglesa a Pat Boone, apareceu pela primeira vez – o que iria acontecer muitas vezes depois – nas paradas”.

Sem sombra de dúvidas, os Quarrymen sabiam muito bem de que lado estavam. Eles nada sentiam, a não ser desdém, pelo bem-educado e religioso Richard. O rock ‘n’ roll – a música deles – não era bem-educado, não era quadrado, não era nada que pudesse cair nas boas graças da BBC. No entanto, isso não os impediu de “adotar” uma das canções de Cliff Richard quando Paul o viu tocar na televisão, e esse recurso eclético a estilos diferentes e até opostos iria se tornar uma das marcas registradas dos Beatles”.

1958 se foi, e os Quarrymen – John, Paul, George e quem quer que pintasse no momento – desenvolveram seu trabalho a ponto de conseguir umas apresentações pagas. Umas poucas mesmo. Mas George saiu da escola e se tornou aprendiz de eletricista. Essa nova habilidade ajudou-os a conseguir amplificadores, e bem depressa o skiffle ficou para trás. Eram, agora, uma  banda de rock. Mas sem baixo e sem baterista.

” O baterista era um problema crônico, principalmente porque, como lembra John, “muito pouca gente tinha bateria; era um instrumento caro”.Mas uma solução – até certo ponto – para a questão do baixo foi encontrada entre os colegas de John na escola de arte. Dessa turma de individualistas rebeldes, morando em quitinetes alugadas de Liverpool, Stuart Sutcliffe era presumivelmente o mais talentoso. Também curtia música e gastava muito do tempo em que não estava pintando ao lado da banda que se aperfeiçoava. Quando um de seus quadros ganhou um prêmio de 60 libras na prestigiosa exposição de John Moore, foi convencido a gastar o dinheiro num contrabaixo elétrico. Assim, embora não soubesse tocar, tornou-se imediatamente membro do conjunto “.

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The Quarrymen recepção na residencia dos HarrisonsPrimeira foto dos Beatles ainda Quarrymen.Stuart-and-John-stuart-sutcliffe-26234419-500-375StuartStuart 2

George ensinou alguma coisa a Stuart, mas o principal da educação musical deste veio dos ensaios diários. Muitos dos que viram o grupo nos seus tempos de Johny and Moondogs ( a ligação com Quarry Bank High School já tinha acabado ) pensaram logo no Sutcliffe como uma espécie de réplica enigmática de James Dean. Essa imagem era reforçada pelo seu costume de ficar de costas para o público durante as apresentações – um costume que tinha menos a ver com mistérios que com sua justificada vergonha por saber tocar apenas nas harmonias mais simples “.

” No entanto, foi Sutcliffe quem apresentou Allan Willian ao grupo. Willian, um bom (excelente!) copo, era um dos expoentes da vida noturna de Liverpool, onde operava um bar, o Jacaranda Club. O Jac, que oferecia aos fregueses sanduíches de toicinho, café e uma banda de metais do Caribe, era um ponto de encontro dos proto-hippies de Liverpool, entre os quais estavam, naturalmente, Stuart Sutcliffe e John Lennon. Por influência de Stuart, Willian deixou que o grupo fizesse seus ensaios na sua adega durante as tardes. Ele fornecia também alguns sanduíches e, como o dinheiro do pessoal andava sempre curto, pagou-lhes uma vez para que limpassem e pintassem o banheiro das mulheres”.

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” Pouco a pouco esses ensaios vespertinos foram se tornando pequenos shows, pois vários estudantes gazeteiros acabavam descendo as escadas para ouvi-los. Dessa forma, Williams acabou dirigindo o primeiro dos beat clubs de Liverpool ( o mais famoso deles, o Cavern Club, só iria se converter do jazz ao rock ‘n’ roll alguns anos depois ), se tornou também o empresário do grupo, conseguindo para eles apresentações em bailes e levando uma pequena porcentagem do que ganhavam. Foi ele também quem arranjou o primeiro baterista mais ou menos regular do grupo. Tommy Moore “.

Moore, de 25 anos, era velho ( George tinha só dezessete, e mesmo John era, diante da lei, um estudante em tempo integral ). Não obstante, ele os acompanhou em sua primeira excursão fora de Liverpool; com o nome de Silver Beatles, o conjunto foi tocar em salões de baile no extremo norte da Escócia “.

” Eles queriam ser simplesmente ” Beatles “, na onda dos Crickets de Buddy Holly, mas um músico mais bem cotado de Liverpool ( Cass, do Cass and the Casanovas) achou que o papel de John como líder do grupo devia ser evidenciado – e, como Silver Beatles, também se fazia uma obscura referência a Long John Silver, personagem de A ilha do tesouro. Esse tipo de nome ( Long John and the Silver Beatles )ficava de acordo com a tradição dos grupos de Liverpool já estabelecida pelo grupo de Cass, e por Rory Storm and the Hurricanes, Derry and the Seniors, Gerry and the Pacemakers. Os Beatles já tinham adotado essa prática nos seus tempos de Johnny and the Moondogs, mas o novo nome tinha um significado em si mesmo – “Beatles” derivava, ao mesmo tempo, de “beetles” (besouros”) e de “beat” (“batida”, “ritmo”); eles eram iguais entre si, e formavam uma unidade.

” Nessa viagem à Escócia – a primeira grande escapada de Liverpool para todos eles -, pela primeira vez experimentavam o sabor de uma vida independente. Paul mandou um postal com as palavras: “Incrível! Até pediram meu autógrafo”. Mas ninguém lhes pediu para ficar, e no retorno a Liverpool ainda estavam muito distantes do sucesso. Moore, que mal sobrevivia com sua parte nos ganhos do conjunto, meteu a bateria no saco e voltou ao emprego de manobrista de guindaste, e os sobreviventes se viram tocando ( entre outras coisas, A long way to Tipperary ) na escuridão de um inferninho de striptease, que era outro tipo de negócio de Williams. Mesmo ali, não faziam grande sucesso – os fregueses reclamavam que a música dos rapazes interferia em suas fantasias. E ainda não tinham baterista fixo “.

Ou melhor, já tinham de meio período. Quando tocavam no Casbah, um café suburbano, Pete, filho da proprietária, a Sra. Johnny Best, se juntava a eles. Bonito e meio mal-humorado, era conhecido como bom baterista, mas como a alquimia do grupo não funcionava com ele, nunca foi convidado a fazer parte efetiva do conjunto. No entanto, quando Williams lhes arranjou trabalho em Hamburgo, Pete Best era quem estava à mão. Quinze libras por semana pareciam muito nessa época; assim, quando Paul o convidou para a viagem, ele aceitou “.

 

Williams tinha sido atraído a Hamburgo um ano antes, quando a banda de metais antilhana do Jac começou a lhe enviar relatos entusiasmados de sua nova jurisdição. Mas a viagem só se concretizou em 1960, quando Williams conheceu Bruno Koshmider, proprietário do Kaiserkeller, de Hamburgo, que estava na Inglaterra à procura de uma banda de rock para tocar nesse seu clube. Um acerto com Derry and the Seniors, um dos grupos agenciados por Williams, acabara de ser cancelado, e ele estava afoito para arranjar outras apresentações. Williams, bom de conversa, convenceu Koshmider a contratar o deprimido Derry, que, desse modo, tornou-se o primeiro grupo de Liverpool a tocar em Hamburgo “.

O sucesso foi arrasador – o negócio foi tão bom que Koschmider imediatamente decidiu abrir outra casa noturna, voltando a Liverpool para saber das novidades de Williams. Gerry and the Pacemakers não se interessaram, e Rory Storm and the Hurricanes ( onde tocava o baterista Ringo Starr ) já estavam contratados para uma temporada de verão numa estância de férias – o trabalho acabou ficando para os Beatles. Só porque uma banda de metais do Caribe foi certa vez a Hamburgo…só porque Williams foi na conversa dessa banda…só porque uma série de shows de Derry and the Seniors foi cancelada…só porque Koschmider estava em Liverpool…só porque Derry acabou sendo um grande negócio para ele…só por isso, os Beatles deram o salto que mudaria suas vidas para sempre “.

Os Beatles chegaram a Hamburgo no outono europeu de 1960, após uma viagem sem emoções através da Holanda, que só se tornou interessante pela dificuldade de Williams em se lembrar de que devia dirigir do lado direito da estrada. Herr Koschmider recebeu-os entusiasmaticamente, mas não foi muito generoso quanto as acomodações previstas no contrato. Deu-lhes três camarins há muito abandonados, atrás da tela de um cinema, cuja mobília eram apenas algumas camas de armar. Mas os rapazes decidiram não ligar para os inconvenientes quando conheceram o Indra, o novo clube de Koschmider, e viram o pequeno cartaz que os apresentava como: ” Os Fabulosos Beatles, de Liverpool, Inglaterra “.

A temporada no Indra não foi um sucesso. Com visões de marcos alemães dançando em sua cabeça, Koschmider transformara o clube, que até então era uma casa de striptease, sem comunicar antes a mudança ao público. Fregueses que esperavam um show de sexo típico estilo hamburguês e acabavam assistindo ao espetáculo dos “fabulosos” – não tão fabulosos assim para eles – não ficavam satisfeitos. Como o contrato com os Beatles ainda tinha cinco semanas pela frente, Koschmider decidiu mudá-los para o Kaiserkeller, bem maior e mais conhecido, onde se revezavam com Derry and the Seniors “.

O kaiserkeller era o local ideal para que eles desabrochassem. Era um ponto da pesada, onde botas e navalhas eram uma constante presença ameaçadora, mas o público estava sempre bem-dispostos para um rock ‘n’ roll. Na verdade, mais bem-disposto até que os Beatles. Pois, na terra destes, as apresentações do conjunto duravam no máximo uma hora; no entanto, no Kaiserkeller, exigia-se que tocassem no mínimo seis vezes mais. Na primeira noite, embora esticassem as músicas com arranjos instrumentais primitivos, faltou material “.

Numa cidade estrangeira, sem adulto protegendo para lhes dar algum apoio atrás do palco, num lugar onde o ruído de um punho contra a carne era o som mais comum, tinham de tocar ou fugir. Assim, expandiram o repertório a jato, cantando, em geral pela primeira vez em conjunto, qualquer canção que os quatro já conheciam, e que fossem clássicos do rock ‘n’ roll.

” Tocavam Buddy Holly, Everly Brothers, Little Richard, Carl Perkins, Conway Twitty, The Fleetwoods, Duane Eddy e, claro, Chuck Berry. Quando não sabiam a letra, inventavam, quase sempre introduzindo músicas de outros em suas próprias melodias improvisadas “. ” Num palco minúsculo de Hamburgo, suando de medo e excitção, os Beatles reiventaram o rock ‘n’ roll. Eles eram a primeira geração do rock – a única em que as explosões emocionais da puberdade coincidiram com a revolução mundial chamada rock ‘n’ roll; em Hamburgo, carregavam os sons proustianos dos anos 50 com a fúria mal-afiada das classes baixas de Liverpool e uma exuberância de meninos-boêmios toda própria”.

Eles jamais teriam descoberto esse estilo em Liverpool. Lá, viviam com suas famílias. Podiam sair para tocar à noite, mas quando a música terminava voltavam à vida do lar. Em Hamburgo, a festa nunca acabava.
Suas estadas em Hamburgo não foram em nada o tipo de coisa que os pais imaginam quando mandam os filhos para morar um ano em outro país. Os Beatles eram adolescentes rebeldes de Liverpool, mas até eles ficaram um pouco assustados com Hamburgo. Casacos de couro, chicotes, verdadeiras lutas livres, travestis de todos os tipos garçons armados, tudo isso visto através de uma névoa formada pelo álcool e anfetaminas, essa foi a sua educação. Que eles amaram. A toda hora fazendo apostas entre si, mergulhavam cada vez mais fundo nos excessos “.

E toda noite, no palco do Koshmider, tocavam uma música sensacional tão fora de qualquer controle como eles próprios. A estada de seis semanas foi ampliada duas vezes. Começou-se a falar neles, e pela primeira vez sentiram um tipo diferente de público.
Klaus Voormann foi o primeiro desses novos fãs. Artista e figura importante na inteliguentsia beatnik de Hamburgo, estava perambulando pelo Kaiserkeller após uma briga com a namorada. Como a maioria de seus amigos, era fanático por jazz, normalmente evitando o rock ‘n’ roll por uma questão de gosto e o clube de Koschmider por uma questão de prudência. No fim daquela noite, subiu as escadas para a rua transformado em fã dos Beatles. Voltou mais uma vez sozinho, e depois com a namorada, Astrit Kircherr. Ela era fotógrafa, e se apaixonou à primeira vista por aqueles cinco Teds mal-educados. Klaus e Astrit se aproximaram deles, num início de amizade. Começaram a trazer outros estudantes para ouvir a música primitiva do grupo, e pouco tempo depois o Kaiserkeller já não era mais domínio exclusivo das jaquetas de couro “.

O novo público era, nas palavras comedidas de Paul, “uma mudança em relação aos alemães gordo de costumes”. Pete não gostou nem um pouco deles, mas George, cujas raízes não o tinham preparado para o estilo de vida dos artistas boêmios, se encontrava sempre deslumbrado e sentia até enfatuado. Ele pensava que “esse pessoal da arte é que é quente”.

Astrit tirou fotos deles, e os rapazes (com exceção de Pete) começaram a jantar diariamente em sua casa. Ela e Stuart começaram um caso, se apaixonaram, e daí seis meses estavam noivos.

E então, durante um intervalo, os Beatles saíram à rua certa noite e, virando a esquina, foram tocar com Tony Sheridan no Top Tem Club, o maior concorrente de Koschmider. Este ficou furioso, e eles prometeram ser bons meninos de novo, mas, como durante a discussão Koschmider voltou a se esquentar, resolveram pôr fogo nos camarins.

Koschmider, agora raivoso, apresentou queixa à polícia, e assim a primeira viagem dos Beatles a Hamburgo chegou a um fim repentino e inglório. George e Paul, menores de idade e sem licença de trabalho, foram deportados formalmente; os outros acabaram voltando como puderam. Durante algum tempo deixaram de tocar juntos, nem mesmo se encontraram, e Paul, cujo pai o pusera para trabalhar numa fábrica, não foi o único a pensar que os Beatles tinham acabado.

Brian Kelly é uma das poucas pessoas que podem ter alguma pretensão plausível ao título de “o homem que descobriu os Beatles”: ele andou fazendo isso algumas vezes. Pequeno promotor de espetáculos de Liverpool, Kelly estava organizando um show de Natal na vizinha cidade de Litherland, para 27 de dezembro de 1960, quando recebeu um chamado de Bob Wooler, um disc-jóquei que dava a maior força ao rock ‘n’ roll americano em Liverpool. Kelly lembra que Wooler começou dizendo: “Descobri um conjunto ideal para você no Jacaranda. E sai de graça. Querem só 8 libras. Serve?”

“Por esse preço, não”, disse Kelly. Após a pechinchada habitual, finalmente acertaram em 6 libras – o que era bem mais do que Wooler esperava conseguir.

Esses Beatles já não pareciam em nada com o grupo que eram antes de Hamburgo. Ainda eram Teds barulhentos, mas tinham desenvolvido um estilo de cantar com a garganta toda que capturou de tal forma a atenção da platéira que sua apresentação no Litherland Town Hall provocou um verdadeiro motim de gritos e batidas de pés no chão. Essa seria a primeira de muitas do gênero, e Kelly logo tirou partido: assim que show acabou, cercou o camarim com cavaletes, para barrar a passagem de outros empresários enquanto não falasse com o grupo. Quando se despediram, os Beatles tinham assinado com Kelly um contrato para uma longa série de apresentações – a 8 libras a noite.

Em cada um dos shows promovidos por Kelly, e em dezenas de outros locai em que tocavam, a reação era a mesma. No começo de 1961, os Beatles eram astros! Mas apenas a um nível bastante local. Trabalhavam muito, reuniam multidões, chegavam a ganhar 3 libras cada um por apresentação, mas sentiam que não estavam indo a parte alguma: 2 libras aqui, 3 ali, e ainda acabavam ficando com menos do que se  operassem guindastes. Por comparação, Hamburgo parecia muito melhor.

E, de fato, uma nova oportunidade esperava por eles nessa cidade. Peter Eckorn, um sujeito relativamente decente, que dirigia o Top Ten Club, queria contratar os Beatles. O problema era o caso da deportação. Mais uma vez, Allan Williams interveio. Escreveu uma carta ao cônsul alemão em Liverpool, culpando Koschmider pela falta das licenças de trabalho. E espichou o conceito de verdade a ponto de afirmar que “esses músicos têm excelente caráter, todos eles, e vêm de famílias de primeira ordem, nunca tendo tido qualquer problema com a polícia deste país”. Por razões que talvez tivessem mais a ver com a ação discreta de Eckorn em sua terra natal do que com a prosa de Williams, o cônsul concordou em conceder as licenças de trabalho. Em abril de 1961, tendo George completado dezoito anos, os Beatles deixaram sua fama local – e seus ganhos locais – para receber 150 libras por semana no Top Ten Club.

O Top Ten era muito maior que o Kaiserkeller, mas, apesar do número de estudantes atraídos pelos Beatles, tinha o mesmo ambiente barra-pesada. O trabalho também era extenuante: seis ou sete horas de música toda noite, com paradas de quinze minutos para descanso ao final de cada hora.

Em pouco tempo, já habituados pela primeira viagem a Hamburgo, voltaram a tomar bolinhas – misturadas às grandes quantidades de bebidas que seus fãs compravam para eles. Cynthia Powel, que passou duas semanas de férias com John, lembra que as bolinhas eram “necessárias”, mas também descreveu uma noite, bem significativa, em que John “cambaleava sobre o palco em convulsão histérica e com tanta bebida e tanta bolinha na cabeça que já tinha perdido todo o autocontrole. Essa noite terminou com John sentado a um canto do palco, com um assento de privada em volta do pescoço, a guitarra numa das mãos e uma garrafa de cerveja na outra, totalmente fora de si”. Depois disse, ainda saíram para farrear.

Tendo em visita a constante tensão física e química em que trabalhavam, não é de surpreender que brigassem com freqüência entre si. Pete Best era o mais disposto para a briga, mas Paul também era áspero com Stuart. Embora uma parte da tensão fosse o resultado normal de personalidade diferentes convivendo sob pressão constante. Cynthia observou que Paul “estava cheio de tocar guitarra base em dupla com John. Ele queria a todo custo desenvolver sua habilidade musical tocando baixo, o que, naturalmente, deixaria Stu na mão”. Não está claro se ele caiu fora por vontade própria ou dos outros, mas Stuart – atraído tanto por Astrid como por uma vaga conseguida na escola de arte de Hamburgo – ficou lá quando o pessoal regressou a Liverpool. E morreu de um derrame cerebral menos de um ano depois.

Porém, antes da partida, Stuart lhes deu, indiretamente, o mais importante presente de despedida: deixou de lado por um dia sua aparência de Teddy Boy e fez Astrid pentear o cabelo para a frente, penteado que ela chamava “estilo fancês”. Nessa noite, ao chegar ao Topo Ten, foi gozado impiedosamente pelos outros. Porém, dois dias depois, George o imitou. Em seguida Paul, e finalmente John. O novo visual era o primeiro de uma série que iria registrar o progresso dos Beatles de fenômeno local a astros mundiais. Apenas Pete resistiu à mudança.

A versão oficial do evento que finalmente projetou os Beatles começa com um tal Raymond Jones, típico Ted de Liverpool, jaqueta de couro, que entrou na loja de discos Nems Music numa tarde de outubro de 1961 e pediu My bonnie, com um grupo chamado “The Beatles”. A Nems era de um rapaz de 27 anos, Brian Epstein. Sua política era de que todos os pedidos dos fregueses deviam ser atendidos; quando Brian tentava descobrir a origem desse disco, viu que era importado da Alemanha Ociental. Novos pedidos do mesmo disco logo se seguiram. Intrigado, Epstein pesquisou mais sobre os Beatles e descobriu – como diz em sua autobiografia: “Eu ainda não sabia disso”  – que os Beatles não eram um conjunto alemão, e sim um grupo local, que tocava no Cavern Club. Então foi vê-los tocar, e o resto é história…

Essa história é maravilhosamente romântica, mas provavelmente apócrifa(Obra ou fato sem autenticidade, ou cuja autenticidade não se provou. ). Quando Epstein viu os Beatles pela primeira vez, já escrevia uma coluna no jornal de música Mesey Beat, de Bill Harry, há mais de três meses. Segundo Harry, Brian era um leitor atento, e, segundo o próprio Brian, um vendedor de discos compulsivamente completo. Assim, parece impossível que ele não tenha visto a manchete mais que otimista que o Mersey Beat já publicara em primeira página: “BEATLES ASSINAM CONTRATO PARA GRAVAR”. Por outro lado, é verdade que a primeira vez que viu um show deles foi na hora do almoço de 9 de novembro de 1961, no Cavern. E ficou junto deles pelo resto de sua vida.

Aos 27 anos, Epstein era uma curiosa mescla de fracasso e sucesso. Filho mais velho de um comerciante de móveis bem sucedido, fora o primeiro da família a conseguir entrar para uma escola particular inglesa, o Wrekin College. Ali, para sua própria surpresa, Brian era o primeiro da classe em arte. E, para surpresa da família, ali decidiu ser desenhista de moda. Essa escolha foi asperamente criticada (“Isso não é coisa de homem!”); assim, teve de deixar o Wrekin e entrou como vendedor nos negócios da família.

Sua habilidade também de nada lhe serviu no exército, nem no curso de teatro de um ano e meio que fez na Royal Academy of Dramatic Art. Assim, em 1957, abandonou a arte pelos negócios, e em 1961 fez da Nems a mais importante loja de discos do norte inglês. Embora não tivesse ligações com os florescentes clubes beat de Liverpool – pois já era velho para isso -, era importante o suficiente para que o público do Cavern o recebesse com aplausos quando foi apresentado após show.

Epstein, apesar de ter julgado os Beatles “não muito asseados, nem muito decentes”, admitiu seu “considerável magnetismo”. Não pensou em agenciá-los, mas convidou-os para um papo.

Seus motivos para essa conversa não eram muito claros, mas certamente ele se identificava com os Beatles de uma forma que tornava irrelevantes as diferenças de renda e de vestuário. Como eles, Brian era um “marginal”, nascido em Liverpool num país em que a cultura “de verdade” estava em Londres, e nem suas roupas caras nem seus modos polidos podiam alterar esse fato. Os Beatles desconheciam a sutil discriminação sentida por ele – para o conjunto tratava-se de um sujeito muito bacana -, mas ele era amargamente cônscio (Que sabe bem o que faz ou o que deve fazer) de suas limitações.

Para começar, era judeu (anos mais tarde, quando um amigo sugeriu que ele devia ter recebido a Ordem do Império Britânico junto com os Beatles, Brian retrucou: “Você já reparou bem no meu sobrenome?”), e, não importando quanto ele batalhasse, sempre alguém realmente poderoso iria tratá-lo como um verme do mundo dos negócios. E, para completar, era homossexual num país onde as portas dos banheiros eram sempre trancadas com firmeza, ainda que polidamente. No entanto, na selvagem energia dos Beatles viu mais que magnetismo sexual; sentiu neles a força que podia romper as barreiras de casta e de classe – o que poderia permitir-lhes escapar à vida medíocre e sem desafios de lojista em Liverpool.

Os Beatles sabiam que precisavam de um agente. Tinham rompido com Allan Williams por causa da comissão no contrato com o Top Ten Club, e, embora Pete Best quisesse tomar conta do assunto, era um substituto inadequado. Brian, nas palavras de John, “parecia eficiente e rico”. No entanto, seu primeiro encontro não foi um êxito total; Paul chegou uma hota atrasado. (Ao que parece, estava tomando banho. Quando Brian reclamou que Paul estava “muito atrasado”, George replicou: “E muito limpo”). Após essa primeira experiência, Brian resolveu investigar o nível de confiabilidade dos Beatles. Entre os consultados estava Wiliams, que lhe disse, segundo a autobiografia de Epstein: “Não se meta com eles. Vão deixar você na mão”. Williams, naturalmente, relembra seu conselho menos polido: “Minha opinião sincera é: melhor você não encostar a mão na merda”.

Brian fez mais que encostar a mão; ele refez os Beatles. Não sua música – era bastante inteligente para perceber até onde ia sua própria capacidade -, mas sua imagem, suas personae. Na autobiografia, Epstein recorda que, quando quis decorar as vitrines da loja, “fiquei, e ainda fico, doido de tentar achar o melhor jeito de expor as coisas”. E ele deu aos Beatles exatamente essa aparência agradável de autêntica juventude que ninguém ousaria esperar de um vitrinista do interior. Ternos elegantes de veludo substituíram o couro, gravatas adornaram seus pescoços e os cabelos gordurosos cresceram macios e limpos, limpos, limpos.

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Nada disso se conseguiu sem resistência. John se conformava com pequenos atos de rebeldia como afrouxar a gravata durante os shows (mais tarde se queixaria de que Paul o fazia reapertá-la). Para Paul, o problema era diferente: gostava das mudanças na imagem, mas sentia o estreito relacionamento Lennon-McCartney ameaçado pela crescente amizade entre John e Brian. Paul chegou a deixar de comparecer a uma apresentação no Birkenhead Technical College só porque, quando Brian apareceu com o furgão para buscá-lo, já tinha apanhado John antes.

Nessa época correu muita fofoca em Liverpool sobre a natureza real das relações entre Brian e os Beatles. O boato de que Pete e Brian eram amantes morreu assim que Best saiu do conjunto (e foi enterrado quando ele se casou), mas as histórias sobre John e Brian aumentaram, chegando ao auge quando Brian levou John à Espanha, em férias. Aparentemente John achava essas histórias um empecilho à sua imagem de machão, pois tudo fez para negá-las, mesmo em entrevistas dadas anos depois que o conjunto se desfez. Naquela época, entretanto, chegou a defender sua condição heterossexual com mais do que palavras: durante uma festa em Liverpool, Bob Wooler imprudentemente sugeriu que Brian e John tinham alguma coisa. Furioso, John derrubou o velho com um soco e chutou-o várias vezes no rosto. A cena foi tão feia que Brian foi ao escritório de Wooler no dia seguinte consertar as coisas. Brian ofereceu dinheiro, John pediu desculpas; Wooler aceitou ambos.

Porém, mesmo com toda a influência ativa e indireta sobre a imagem dos Beatles, Brian não mudou sua música. Bem antes disso o conjunto já descobrira uma estética do som. Paul relembra Hamburgo: “Não tínhamos preocupação quanto aos arranjos de nada. Se surgia algum problema com amplificadores supercarregados – tínhamos de ligar duas guitarras em cada um -, eu começava a sapatear sobre o palco ou corria para o piano e tocava alguns acordes… era som e ritmo do mesmo jeito”. Assim, o som áspero e agressivo do seu rock ‘n’ roll permaneceu. As gravações no Star Club de Hamburgo, em 1962, com os Beatles em ação, descarta definitivamente o mito revisionista de que os Beatles eram a alternativa segura da sociedade aos Rolling Stones. Nessas apresentações – com a rascante guitarra de George em Roll over Beethoven, o vocal explosivo de John em Sweet little sixteen e o tom alto e enérgico de Paul em Long tall Sally, de Little Richard -, os Beatles botam pra quebrar.

Essa frase não é acidental; sob a tutela de Brian, os Beatles se tornaram uma metáfora curiosa de sua vida. Fazendo o papel de homem de negócios respeitável até demais durante o dia, à noite Esptein nada tinha do suburbano sossegado. John falou de Brian como “cheio de rompantes infernais, ataques, e estafas, e sei lá o que mais; de repente ele desaparecia. O negócio todo podia ir pro brejo que ele ficava dormindo dias seguidos por causa das pílulas; nem queria saber de ficar acordado. Ou então não aparecia, sabe como é, porque estava apanhando de algum estivador na Old Kent Road”.

Quando Epstein foi a Londres em busca de um contrato de gravação para o conjunto, sabia perfeitamente da violenta investida musical que aguardava a vez atrás da fachada limpa, lavada, dos rapazes; o homem de negócios inato vendeu não apenas os Beatles, mas também a si próprio.

Não é à toa que se saiu bem. Seu charme era autêntico, seu poder como o maior varejista do norte era considerável o suficiente para lhe garantir a chance de usá-lo. Finalmente, é claro, seu produto era muito especial. Teve de engolir algumas negativas polidas e deferentes, mas, no final de julho, George Martin concordou em gravar com eles para a Parlophone Records. Os rapazes entravam no caminho: John, Paul, George…Pete.

Nada contaram a Pete sobre o contrato. Há muito tempo já pensavam em substituí-los; agora, às vésperas de assinarem contrato para gravar, queriam fazer isso de uma vez. Brian não queria mudar nada, mas a tarefa ingrata lhe foi atribuída. Desincumbiu-se da forma mais elegante possível, jogando parte da culpa em George Martin, mas a grita foi geral em Liverpool. Best era um dos preferidos dos fãs – em parte por manter o estilo Ted, e em parte devido à promoção incessante que sua mãe fazia dele no popular Casbah Club, de que era dona. Assim que o Mersey Beat publicou a reportagem exclusiva “Beatles trocam de baterista”, as fúrias se desencadearam; uma multidão zangada e ululante(É um adjetivo que vem do latim ululante.Significa aquele que ulula.
Lamentoso, Aquele que solta uma voz triste e lamentosa.) de fãs de Best se reuniu no Cavern para protestar contra a primeira aparição de Ringo como beatle. Brian preferiu não acompanhar o grupo, e permaneceu prudentemente em seu escritório, mas George, sem essa opção, batalhou para abrir caminho rumo ao palco. Ganhou um olho negro no caminho.

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Naquele verão de 1962, Ringo – seu nome real: Richard Starkey – via-se sem perspectiva. Tendo acabado de sair dos Rory Storm and the Hurricanes, estava pensando tão seriamente em emigrar que escreveu à Câmara de Comércio de Houston consultando sobre a situação de empregos no Texas. Aos 22 anos, ainda pensava em ser caubói.

Para ele, não havia muito mais a fazer que sonhar. Ringo nasceu em alojamentos tão pobres que faziam até os dos Harrison parecer elegantes. Esse foi apenas o primeiro problema. Seus pais se divorciaram quando ele estava com três anos, e o menino cresceu no Dingle, um dos bairros mais barras-pesadas da parte barra-pesada de Liverpool, onde sua mãe sustentava a família trabalhando como garçonete. E, além de pobre, Richard era também doentio.

Aos seis anos, teve apendicite e peritonite, passando dez semanas em coma e mais de um ano no hospital. Voltou à escola um ano atrasado nos estudos, totalmente inepto para ler e escrever. Uma vizinha o ajudava nas lições.

Porém, dias melhores pareciam estar vindo. Sua mãe casou novamente – aliviando as finanças cronicamente insolventes da família – e ele começou a ir mais ou menos na escola. No entanto, aos treze anos contraiu pleurisia e voltou ao hospital. Surgiram complicações, e foi transferido para outra instituição, de onde só saiu aos quinze anos. Assim, quase sem escolaridade, atingiu a idade em que deveria ter o primeiro diploma. Ainda doentio, não podia fazer nenhum trabalho que exigisse esforço físico, mas achou emprego como Office boy e mais tarde se tornou aprendiz de ajustador mecânico. Foi quando a onda do skiffle estourou.

Seu padrasto, satisfeito em ver Ringo empregado em alguma coisa, comprou-lhe uma bateria usada. Em um ano, com a ajuda desse paternal padrasto, comprou outra, em melhor estado. Como as baterias custavam caro, Ringo era – talvez pela primeira vez na vida – muito procurado.

Tocou com diversos grupos locais, mas o grande lance surgiu em 1959, quando Rory Storm recebeu a proposta para fazer a temporada de verão no Butlin’s, colônia de férias para trabalhadores. Storm pediu a Ringo para juntar-se ao grupo e tempo integral, e este, tendo descoberto que poderia ganhar três vezes seu salário de aprendiz, aceitou. Um tanto magro – e, digamos a verdade, de aparência engraçada -, Ringo era uma figura imediatamente reconhecível no palco; tornou-se tão popular que a festa dos seus 22 anos reuniu a nata dos grupos beat de Liverpool na casa de sua família. Os Beatles, então em Hamburgo, pela segunda vez, não compareceram.

Ringo reencontrou-os quando foi com Rory Storm para Hamburgo, onde tocou com eles muitas vezes (como nas lendárias apresentações no Star Club). Quando o contrato de Storm acabou, Ringo tinha gostado tanto de Hamburgo que ficou por lá acompanhando Tony Sheridan. Logo depois voltou à Inglaterra. Estava indeciso entre os atrativos do Texas e os do trabalho regular em mais uma temporada de verão com Storm, quando John o procurou pedindo-lhe para tornar-se um beatle.

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PAUL – “O FATO É QUE SOMOS A MESMA PESSOA. SOMOS APENAS QUATRO PARTES DE UM SER”.

“John foi logo dizendo para Ringo que ele teria de pentear o cabelo para frente – coisa que Best se recusara terminantemente a fazer -, mas poderia continuar a usar costeletas. Também poderia ganhar 25 libras por semana. Normalmente os músicos de Liverpool ganhavam apenas 20; assim, Ringo não teve dúvidas em aceitar. Quando os Beatles desceram a Londres em setembro para gravar o primeiro disco, foi junto com eles.

Avaliando suas habilidades após anos de fama e muita atividade, Ringo afirmou ser apenas “um dos dois melhores bateristas de Liverpool nessa época”. Em outras palavras, seu jeito de tocar era vigoroso, mas rústico, dirigido mais para agitar um salão de baile cheio que para marcar o ritmo de um conjunto. Seu som era, e permaneceu muito baseado nos pratos e no bumbo; os sons bem dosados ficavam só para as músicas lentas.

Novo no grupo sentiu-se particularmente desajeitado no estúdio. Embora gravar fosse muitíssimo mais simples naqueles tempos, antes de surgirem produções com múltiplos canais e milhões de dólares, o som de Ringo parecia indigesto para um disco. Assim, o produtor George Martin arrumou um baterista de estúdio, Andy White, para tocar com o grupo, deixando Ringo com as maracás em P.S. I Love you e o pandeiro em Love me do. Se Martin estava certo ou não é uma questão interessante: a bateria de Ringo aparece na versão em compacto de Love me do, e a diferença entre ele e White (no LP) demonstra claramente que, assim como Epstein suavizou a imagem dos Beatles, Martin amenizou seu som.

Mas o feito representado pelo disco – era o deles, pelo menos – importava mais que a intimação passageira de Ringo. Incendiados pelo entusiasmo, voltaram ao circuito dos bailes. O charme jovial de Ringo logo exorcizou o fantasma de Best, e parecia que os quatro felizardos nada mais tinha a fazer que aguardar o estrelado. Mas ele não veio tão magicamente como desejavam, Embora as vendas fossem grandes no norte (onde a firma de Epstein fez pedidos de grandes quantidades), o disco atingiu uma fraca colocação nas paradas de sucessos britânicas”.

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Quando chegou à posição 17, começando a cair, os rapazes já estavam de volta à maratona dos clubes de Hamburgo. Porém, o segundo compacto já estava gravado, e quando Please please me foi lançado, em janeiro de 1963, levou apenas um mês para chegar ao primeiro lugar nas paradas. Os Beatles tinham afinal encontrado seu caminho.

É digno de nota que pouca gente fora do mundo da música tenha reparado nisso. Maureen Cleave, do London Evening Standard, fez uma reportagem com eles, enfatizando seu original caráter liverpoolense, mas nisso se resumiu o interesse da imprensa. Mesmo assim, em maio, Brian Epstein se contratou como agente dos Beatles em tempo integral. O primeiro lugar era uma grande coisa, mais do que o grupo ousara sonhar nos tempos em que fazia som para strip-teases, mas Epstein pretendia algo mais. A palavra ainda não existia, mas ele já estava inventando a “beatlemania”.

Hoje em dia, em algumas partes do mundo, o sucesso de um cantor começa pelo seu visual, ou seja, ele faz sua estréia no meio artístico através da televisão, e muitas vezes as pessoas se surpreendem ao ver algumas caras desconhecidas, das quais nunca sequer ouviram falar, sendo apresentadas como campeões de vendagem de discos, ganhadores de não se sabe quantos discos de ouro, etc., e o rádio, apesar da sua força em termos de comunicação, parece estar relegado a um segundo plano.

No entanto, nos Estados Unidos até hoje os discos, para alcançarem os primeiros lugares da parada, têm que percorrer os caminhos abertos pelas programações do rádio. As pessoas primeiro ouvem a música e depois compram o disco. Elas têm essa opção (ou, como dizem alguns, são enganadas por essa manipulação) porque mesmo os pequenos vilarejos, localizados nas regiões mais remotas, têm uma ou até duas estações de rádio com uma programação de “as quarenta mais”.

Certamente, esse não era o caso na Inglaterra de 1963. Embora a Rádio Luxembourg explodisse seu poder de watts em som pop que atingia todas as ilhas Britânicas, o som dominante na BBC era do tipo quadrado Auntie Beeb. Nada de barulhos ou ruídos estranhos que machucassem os ouvidos.

Assim, os grupos ingleses faziam intensas excursões, batalhavam uma rara apresentação na TV e cortejavam a imprensa – tanto os inúmeros hebdomadários pop como os grandes diários. Nesse ponto de sua carreira, apenas os semanários pop mostravam grande interesse pelos Beatles; apesar dos contatos pessoais e do fluxo contínuo de “notícas exclusivas” distribuídas por seu agente, apenas um artigo sobre o conjunto apareceu num grande jornal nacional no primeiro semestre de 1963.

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Enquanto isso, eles davam duro tocando a parte inicial das apresentações de Helen Shapiro e Tommy Roe, e finalmente co-estrelando com Roy Orbison.

O terceiro disco, From me to you, foi lançado durante esse período, e também chegou ao primeiro lugar, apoiado por sua primeira apresentação na TV. Começaram a atrair multidões – e “feijõezinhos” de goma, que George, inocentemente, mencionou apreciar, numa publicação musical.

Também atraíram uma multidão de deficientes físicos, coisa que jamais teriam imaginado, embora isso pareça ter a ver com a imagem asseada e terna que estavam projetando sob a tutela de Brian. Seu velho coordenador de excursões, que os acompanhava desde os tempos pré-Ringo, relembrou “Sempre apareciam multidões de aleijados. Às vezes estavam nos camarins quando chegávamos ao teatro. A gerência deixava-os entrar, pensando que nós iríamos adorar vê-los; julgavam que éramos uns sujeitos adoráveis”. Não existe nenhum registro de que tenham feito alguma cura durante esse período.

Apesar do crescente exército de fãs por toda parte, os Beatles permaneciam um conjunto de Liverpool. Em agosto lançaram She loves you, que fez o previsível caminho para a primeira colocação, mas seu maior êxito nacional foi com a décima terceira aparição no programa de variedades ao vivo da BBC, Sunday night at the London Palladium. A audiência foi estimada em 15 milhões de pessoas, e foram os fãs de Londres que tornaram os Beatles, finalmente, notícias de primeira página.

Muitos fãs não conseguiram ver esse show; as entradas tinham se esgotado sete meses antes – nunca tinha acontecido algo assim em Londres. Multidões se formavam à porta do teatro, e jornalistas e equipe de TV vieram cobrir o evento. Outros jovens, ouvindo falar na história, vieram ver o que estava acontecendo. O que, por sua vez, atraiu mais repórteres e um atarantado reforço policial. Este, tentando contornar a situação, dirigiu o carro que levaria embora os Beatles para um ponto que aos policiais parecia mais favorável. Só que eles se esqueceram de avisar os Beatles da mudança, e os quatro tiveram de sair correndo, em desespero, por um corredor polonês de cinqüenta metros, através da multidão turbilhonante de fãs, cuja histeria vinha aumentando durante a longa espera. Essa arremetida fotogênica tornou-se notícia.

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O mais importante é que a imprensa e o público ingleses – esgotados pelos escândalos desencadeados pelo cada vez menos engraçado caso Profumo- Keeler – estava inconscientemente ávido por esse tipo de notícia não-séria. Ao invés de acabar quando o grupo partiu de Londres, a história dos Beatles aumentou: os meios de comunicação e os fãs continuaram a alimentar-se mutuamente, como haviam feito às portas do Palladium. O lugar mudava – Carlisle, Birmingham, Dublin (onde o chefe de polícia apresentou a maravilhosa explicação de que “tudo estava bem até que a mania degenerou em barbárie”) -, mas a história era a mesma: beatlemania.

Os Beatles pouco notaram. As multidões pareciam, para eles, iguais às do Palladium. Candidamente ignorantes dos efeitos do princípio de incerteza de Heisenberg, marcaram uma turnê à Suécia. Foi só quando voltaram, encontrando sua primeira multidão estridente no aeroporto, que a magnitude de seu sucesso começou a penetrá-los.

A beatlemania ganhou firma reconhecida quando o conjunto foi convidado a tocar no Royal variety show, o espetáculo de variedades da corte britânica, de 1963. Chegaram ao evento, que também incluía Sophie Tucker, Marlene Dietrich e Maurice Chevalier, mais como potentados em visita que como súditos da rainha. Respondendo à pergunta dos repórteres sobre se não achava que os Beatles estavam sendo infiéis aos fãs de Liverpool ao participar de um espetáculo tão elegante, Ringo afirmou apenas que achava ótimo tocar bumbo para a rainha-mãe.

Mais tarde, em novembro, lançaram o segundo LP, With the Beatles; naturalmente, o disco saltou para o topo das paradas, mas os meios de comunicação enfocavam menos sua música que seu modo de ser beatle. O tom foi mudando, das reportagens sobre tumultos para sóbrias análises sobre O que Isso Tudo Significa Precisamente. Como em Hamburgo, os Beatles ampliavam suas bases de fãs “típicos” e começavam a conquistar a inteliguêntsia (usualmente refere-se a uma categoria ou grupo de pessoas engajadas em trabalho intelectual complexo e criativo direcionado ao desenvolvimento e disseminação da cultura, abrangendo trabalhadores intelectuais.). Sua maior façanha, talvez, e também fonte de muito deleite particular, foi quando o crítico de música do London Times fez a resenha de fim de ano, opinando que “That boy, que tem lugar proeminente nos programas dos Beatles, é expressivamente incomum por sua musicalidade lúgubre, mas harmonicamente é uma de suas canções mais intrigante, com seus encadeamentos pandiatônicos, e o grau de sentimento é agradável porque cantado limpa e resolutamente. O interesse harmônico, no entanto, é típico de suas canções mais rápidas também, e tem-se a impressão de que pensam simultaneamente na harmonia e na melodia, tão decididas são, em suas obras, as sétimas e nonas maiores construídas e as mudanças de escala para as superdominantes, tão naturais estas na cadência eólia ao final de Not a second time (a progressão de acordes que finaliza a Canção da terra de Mahler)”.

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RINGO – “Então é isso a América. Parecem todos Loucos”.

A “operação EUA”, como Epstein modestamente a chamou logo em seguida ao Royal variety de 1963, quando ele foi para Nova York e se hospedou numa luxuosa suíte do Regency Hotel. Essa incursão, feita numa época em que os Beatles ainda recebiam cachês de 50 ou 60 libras por noite, custou-lhe mais de 2000 libras. Era um jogo alto.  Antes dos Beatles, o tráfego do rock ‘n’ roll era todo em mão única: Little Richard era um herói na Inglaterra, Cliff Richard um ilustre desconhecido nos EUA. Mas Epstein não apenas agenciava os Beatles, ele os amava. E acreditava piamente que podia superar a defasagem transatlântica. No entanto, ele era o único.

Na Capitol Records, julgaram que era um louco. Como subsidiárias da EMI, essa gravadora tinha os direitos para prensar os discos dos Beatles nos EUA. Porém, após uma audição superficial de Please please me e From me to you, a Capitol decidiu não se incomodar com eles. Assim, esses compactos foram lançados pela obscura Vee Jay Records, mas mesmo esta desistiu de fazer o terceiro: She loves you saiu pelo moribundo selo Swan. Como nenhum dos três chegou nem perto das listas dos cem mais vendidos, ficava difícil discutir a decisão da Capitol.

Epstein discutiu, claro, e, motivada por conversações com a matriz inglesa, a Capitol decidiu lançar I want to hold your hand. (Mais tarde, Epstein declarou que estava certo de que este seria sucesso, mas mesmo assim gastou tempo insistindo nas relações com a VeeJay). Sua negociação que teve maior evidência, porém, foi com Ed Sullivan.

Apesar do apresentador desajeitado diante das câmaras, o Ed Sullivan Show tinha o poder de iniciar ou firmar uma carreira; e, nas noites normais, tinha audiência cinco vezes maior que a do programa mais popular da BBC. Era sempre um programa com um toque internacional (humoristas parodiavam com sucesso as especialidades de Sullivan, com quadros do tipo “914 dentista poloneses pulando e dançando para seu entretenimento”), e os produtores de Sullivan corriam regulamente os circos europeus em busca de atrações para a TV americana. Mesmo que os Beatles não passassem de novidades esquisitas, eram potencialmente talhados para o programa.

No entanto, ele sentia que eram mais que isso, pois estava no aeroporto de Londres quando a multidão tempestuosa recebeu os Beatles de regresso de Estocolmo, e não sentiu dúvidas quanto ao que viu. “Logo percebi que era o mesmo tipo de histeria coletiva que caracterizou os tempos de Elvis Presley”, declarou ao New York Times. A carreira de Elvis explodiu quando Sullivan lhe deu uma série de três apresentações, fato inédito em seu programa – embora só o mostrasse da cintura para cima. Fiando-se no seu instinto, Sullivan achou que os Beatles eram “realmente magistrais”; e quis tê-los, ao vivo e com exclusividade, no seu show.

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GEORGE – “Agora agüentamos melhor uns aos outros que quando nos conhecemos.

Epstein estava, naturalmente, inclinado a concordar. Por isso, não fez questão de muito dinheiro (na verdade, os Beatles receberam 2400 dólares por apresentação, menos de metade do cachê normal de Sullivan), mas da seqüência máxima – três semanas seguidas.

Após dois dias de intensas negociações, chegaram a um acordo. Poder-se-ia imaginar que Epstein então relaxou e ficou esperando que a mágica televisiva funcionasse sozinha. Mas não. Ele vira os Beatles romperem as barreiras de classe e idade na Inglaterra, e acreditava que podiam repetir o feito na América. Embora soubesse que o influenciável pelo rádio era bem mais difícil de trabalhar, Epstein usou seu charme corrente e limpamente britânico para seduzir a imprensa americana. Através dele, os Beatles se tornaram os primeiros artistas populares a atingir o sucesso usando também os meios de comunicação escrita.

E com muita classe. As primeiras matérias sobre os Beatles saíram em nada menos que na The New Yorker e na The New York Times Magazine. A da Times era na verdade uma reportagem sobre a beatlemania, feita com a assistência do assessor de imprensa inglês dos Beatles – mas a da New Yorker era com Epstein. Tanto a entrevista como a publicação escolhida tornavam clara a notável estratégia de Espstein. Para tomar de assalto a Inglaterra, os Beatles primeiro conquistaram a garotada (e isso após marcar passo muito tempo em bares e salões de baile), mas agora iam subjugar toda a América de um só golpe.

A notícia de que Brian conseguiria formar filas para as apresentações no Ed Sullivan fez a Capitol Record espreguiçar-se, mas a gravadora acordou de vez a partir de 13 de janeiro de 1964, data do lançamento do quarto compacto dos Beatles. I want to hold your hand pulou direto para o primeiro lugar, e a Capitol começou a investir no futuro dos Beatles. Nas três semanas anteriores à chegada do conjunto aos EUA, ela investiu a soma, sem precedentes, de 50000 dólares em sua promoção. Trabalhando com Brian, contrataram dezesseis assessores de imprensa para a chegada iminente dos Beatles.

Num passe de mágica, cartazes com as palavras “OS BEATLES ESTÃO CHEGANDO” apareceram em todas as grandes cidades, e os disc-jóqueis importantes receberam não apenas o material habitual, mas também uma peruca beatle e um disco que lhes permitia fazer “entrevistas” e receber as respostas nas próprias vozes liverpoolenses dos rapazes. Por todo o país, as estações de rádio lutaram para ver qual se identificava melhor com os “Fab Four” (a partir daí, o apelido do grupo); em Nova York, onde a composição pelos dólares da publicidade era bem mais acirrada, as quarenta rádios principais transmitiam quase a cada minuto flagrantes da travessia aérea dos Beatles sobre o oceano Atlântico.

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RINGO – “Me perguntaram por que uso anéis nos dedos. Respondi que é porque não consigo encaixá-los no nariz.”

O vôo, em si, foi um rebuliço – uma amostra da cena que aguardava os Beatles na aterrissagem. Além das equipes de repórteres ingleses cobrindo a viagem por conta de seus jornais (as mordomias do rock ‘n’ roll sugiram depois que o sucesso dos Beatles multiplicou as receitas das companhias de discos), vários assentos eram ocupados por homens de negócios americanos de raciocínio rápido. Sentindo o odor de dinheiro, não podiam simplesmente esperar que os Beatles chegassem.

Brian, que já estava em vias de montar uma firma nos Estados Unidos para licenciar o uso do nome dos Beatles para vários produtos, reuniu-se alternadamente com eles. Sua preocupação, dizia, era que o nome e a imagem dos Beatles fossem associados apenas a “produtos de qualidade”, recusando tudo o que não combinasse com a imagem que pretendia para o grupo. Entre as ofertas que se sentiu obrigado a declinar estava uma que resultaria no papel higiênico “oficial dos Beatles”.

Parece, porém que, fora isso, praticamente tudo foi aprovado, e o sucesso dos Beatles foi capitalizado em coisas tão dúbias como lancheiras oficiais dos Beatles, camisetas, pijamas, calças, blusas, uniformes de tênis, e – naturalmente – perucas (feitas pela Lowell Toy Corporation, que produzia mais de 15000 unidades por dia).

Apesar de tudo isso, os quatro estavam nervosos, e, no avião Paul virou-se para Phil Spector (produtor de discos americano cuja presença a bordo significava que estavam chegando ao mesmo tempo em várias frentes) e perguntou: “Já que a América sempre teve tudo, por que justamente nós vamos fazer dinheiro lá? Eles têm seus próprios conjuntos. O que vamos dar a eles que ainda não tenham?”

Embora ele não precisasse se preocupar – os Beatles não eram de ninguém, ou de parte alguma -, a pergunta de Paul era sensata. Eles poderiam tornar-se, como Sullivan intuiu, novos Elvis – uma variação importada do tema “uma geração que se define”. Mas esse tipo de sucesso parecia fácil demais. Alimentados pela genial conspiração das rádios de Nova York, mais de 4000 adolescentes aos gritos foram saudar os Beatles à saída do avião. Além do reforço normal da polícia do aeroporto, 110 policiais de elite foram chamados para repelir as cargas da multidão em frenesi. “Nunca vimos nada igual aqui antes”, ofegava um oficial do aeroporto, “nunca”. E parecia atormentado ao comentar a faceta mais surpreendente da multidão: vários dos jovens já estavam com o cabelo escovado para frente.

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JOHN – “Quando minha cabeça parece que começa a inchar, viro-me para Ringo e aí então percebo que não somos super-homens”.

Anos mais tarde, cabelos compridos passariam despercebidos até em gabinetes governamentais, mas em 1963 eram notícia. Na verdade, a maioria dos tantos jornalistas de Nova York que abordaram os assessores de imprensa de Epstein, céticos, imaginaram que o comprimento do cabelo era a única notícia ali. Cantores populares raramente eram vistos côo fontes de sabedora – ou mesmo de coerência. Nas raras ocasiões em que o Coronel Tom Parker deixou os repórteres falarem com o maior astro dos EUA, Elvis raramente se saía com algo, mais digno de citação que “sim, senhor” ou “não, senhora”.

Porém, Brian acreditava que os Beatles poderiam conquistar, encantando-a, a América adulta. E por que não? Se a rainha-mãe os tinha julgado agradáveis, os Estados Unidos também o fariam. Entre espocar dos flashes no terminal do aeroporto, exibiram em sua primeira entrevista coletiva nos EUA uma mescla de irreverência e cinismo que os estabeleceu como pares intelectuais da imprensa. E, em alguns casos, seus superiores. Isso era uma notícia mais importante que o cabelo comprido. Era, também, um cavalo-de-tróia, pois, mesmo quando as falas dos Beatles deixavam os adultos respirar aliviados, sua irreverência os aliviava aos jovens. Foi o gênio promocional de Epstein que levou os repórteres a primeira fila do aeroporto; no entanto, os próprios Beatles premiaram a fé de Brian ao improvisarem as respostas com tamanho brilho que a entrevista passou ao folclore da noite para o dia.

REPORTERES.

Vocês vão cantar para nós?

JOHN: Antes queremos dinheiro.

REPORTERES.

Como explicam seu sucesso?

JOHN: Temos um assessor de imprensa.

REPORTERES.

Vocês mencionam Beethoven numa de suas músicas. O que acham dele?

RINGO: Amo Beethoven… especialmente seus poemas.

REPORTERES.

O que vocês fazem no quarto do hotel entre os shows?

GEORGE: Patinação no gelo.

REPORTERES.

Vocês têm alguma mensagem para os americanos?
PAUL: Sim, temos. Nossa mensagem é… comprem mais discos dos Beatles.

“A imaginação dos Beatles”, disse o New York Times, “foi contagiante.” O repórter, procurando impressionar de alguma forma seus leitores com a natureza extraordinária desse evento, escolheu um clichê que serviria para qualquer veterano de milhares de entrevistas coletivas: “Os fotógrafos até esqueceram e fazer as fotos”.

Em seguida vieram: a ida para o Plaza (um hotel sossegado que aceitara a reserva de um grupo de homens de negócios ingleses alguns meses antes e não ficou nada feliz ao descobrir que eram John, Paul, George e Ringo); multidões de garotas gritando sem parar; uma viagem a Washington; mais garotas aos gritos; o trem de volta a Nova York (“Multidões de olhar selvagem perseguem os Beatles” foi a manchete do times); os shows lotados no Carnegie Hall; e um vôo para Miami.

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Apesar desse entusiasmo, a imprensa não estava bem segura como tratar os Beatles. Na maioria das primeiras reportagens, são descritos como praticamente indiferenciáveis uns dos outros; mesmo o sagaz repórter do Herald Tribune os descreveu como “quatro moleques descompromissados de Liverpool que vestem paletós de quatro botões, calças apertadas, botas de cano alto saltos cubanos. E que parecem cômicos”. Talvez devido a essa confusão, atribuiu a observação de Ringo sobre Beethoven a John.

Essas confusões hoje parecem quase impossíveis – não só porque cada um dos Beatles desenhou uma imagem clara em nossa mente, mas também porque mudaram a forma como a cultura popular era tratada pela imprensa. Pouco a pouco, surgiram especialistas nos diários; “críticos de rock” começaram a analisar a música com seriedade quase religiosa. E, talvez o mais importante, um novo tipo de publicação apareceu. Algumas dessas revistas ou jornais “underground” tiveram curta duração, mas todas eram mais que os simples “boletins dos fãs” no velho molde pré-Beatles. As melhores levaram a sensibilidade pop a tratar dos assuntos políticos, que antes só eram enfocados com a solenidade do Times ou o sensacionalismo do Daily News de Nova York. A rede da contracultura, menos sisuda, criou e deu validade à cadeia de eventos hoje rotulada em bloco como “os anos 60”.

Que na verdade ainda não existiam em 1963. E, ainda que a imprensa fosse globalmente favorável aos Beatles, estava, da mesma forma que na Inglaterra, muito mais centrada no evento que na música.

Isso não era surpresa, pois a música – enquanto música – era difícil de classificar; quando os jornais tentavam levar o pop “a sério”, os resultados eram cômicos. Theodore Shongin, crítico de música erudita do New York Times, observou (em tom coloquial, ao contrário do London Times) que a música dos Beatles era “diatônica” (é uma escala de oito notas, com cinco intervalos de tons e dois intervalos de semitons entre as notas), notando, logo em seguida, que “três dos quatro Beatles tocam instrumentos de cordas dedilhada, eletronicamente amplificados, de diferentes tamanhos”. O crítico de jazz John S. Wilson, ao comentar as apresentações no Carnegie Hall, fugiu ainda mais à questão, contentando-se em descrever a platéia. Seu longo artigo não mencionava nenhuma das canções pelo nome – presumidamente porque nenhum crítico levava a música pop a sério o suficiente para aprender qualquer nome de música

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Alinha divisória, assim, estava traçada não tanto entre os que pensavam que os Beatles eram “agradáveis” e os que os julgavam “importantes” – mesmo os sociólogos de ouvido apurado garantiam-lhes a importância de um fenômeno -, mas entre dois campos totalmente diferentes: os que ouviam a música e os que não a ouviam.

Em nenhuma outra parte essa divisão era tão clara como entre os apreciadores do folk. Embora centrados em Nova York, tinham postos avançados (ou pelo menos bares e cafés) em praticamente todas as cidades universitárias dos EUA. Eram inegáveis conhecedores, achando o popular Kingston Trio uma contrafação óbvia. Mais, sua preocupação com a música era uma forma de estender a camaradagem cultural do colégio e – finalmente – uma antecipação da cultura rock que estava para explodir. Apesar de sua nostalgia pelos heróis operários de Woody Guthrie, os folkies não se preocupavam em disfarçar seu desprezo pela cultura contemporânea da classe trabalhadora. Rock ‘n’ roll era, segundo a frase feita, “música com borbulhas”. Os mais empedernidos nunca venceriam esse esnobismo, e certamente jamais perdoaram a Bob Dylan não ter sido tão tacanho como eles.

Dylan, sem dúvida a força criativa central entre os “cantores-compositores” dos anos 60, ouviu os Beatles pela primeira vez no rádio de seu carro, em 1964, viajando pelo interior. “Eles estavam fazendo coisas que ninguém fazia. Todo mundo pensou que eram um modismo para menininhas, que logo, logo iriam sumir. Mas era óbvio para mim que tinham o poder da permanência. Logo vi que eles estavam apontando na direção para onde a música devia ir.” Nem Brian podia desejar mais.

Na volta à Inglaterra, os Beatles foram recebidos como a vanguarda não apenas de um momento musical, mas de um movimento de geração. O vestuário, o cabelo, sexo, música drogas, até o New York Times… nada, após os Beatles, seria o mesmo.

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Os Beatles voltaram à Inglaterra como heróis conquistadores; a jogada monumental de Epstein também deu certo na terra natal, e o primeiro-ministro louvou sua “útil contribuição ao balanço de pagamentos”. No entanto, eles não dormiram sobre os louros (ficar descansado após os êxitos obtidos).

Em março, duas semanas após a volta, John publicou seu primeiro livro, In his own write. Embora os leitores do Mersey Beat já soubessem a muito que seu talento verbal se estendia muito além de “yeah, yeah, yeah” (sua coluna, com o pseudônimo “Beatcomber” – paródia de “Beachcomber”, célebre humorista inglês – era a única seção do jornal que se podia classificar como tendo um estilo), o resto da Inglaterra não estava preparado. Essa coletânea de contos galhofeiros e cenas bufas englobando temas tão joviais como assassinato doméstico, canibalismo e ódio racial foi recebida com surpresa e admiração.

O suplemento literário do Times notou que o livro “merece a atenção de quem quer que tema pelo empobrecimento do idioma inglês e da imaginação britânica”. Vendeu mais de 300.000 exemplares na Inglaterra e também foi Best seller nos EUA, onde o crítico da Newsweek – menos preocupado que o do Times com o futuro da imaginação britânica – observou ‘corretamente que o livro “sugere que, quando John canta ‘quero pegar sua mão’ (I want to hold your hand), na verdade desejaria é mordê-la”.

Ah, sim, enquanto isso um novo disco ia para o primeiro lugar em março: Can’t buy me Love, que Paul e John compuseram quando estavam a caminho para gravar um show de Ed Sullivan em Miami. E em seguida entraram nos estúdios de cinema.

Nada antes em sua carreira fixou tão firmemente a imagem dos Beatles ou ampliou sua audiência como o filme A hard day’s night (Os reis do ié,ié,ié). Seu baixo custo (600.000 dólares), fixado antes do sucesso dos Beatles, fez com que o filme fosse tudo menos uma superprodução. Rodado em preto e branco, e recheado de truques de câmera da nouvelle vague, era um pseudodocumentário maluco sobre um dia “típico” dos Beatles. A maior parte do tempo estão fugindo dos fãs e são irreverentes com os mais velhos (que sempre fazem por merecer a irreverência). Nas melhores partes, o filme sintetiza a perfeição a mensagem que os Beatles colocavam em suas canções: eles se sentiam um pouco deslocados neste mundo, mas isso podia ser mais culpa do mundo que deles.

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Desde a estréia em Londres naquele julho, A hard day’s night foi um tremendo sucesso comercial – e ainda permanece como um dos filmes mais lucrativos da história, em relação ao investimento. Além disso, seu êxito de crítica foi ainda mais impressionante, pois forçou uma geração que automaticamente desdenhava os Beatles a encará-los seriamente como artistas. Vejam o tom quase incrédulo dessas publicações extasiadas:

“Com toda a má vontade do mundo, a gente se senta ali, olhando e ouvindo – e sente a inteligência dissolver-se em meio à aprovação unânime” – Newsweek.

“Isto vai surpreender você – talvez até o faça pular da cadeira -, mas o novo filme com esses sujeitos incríveis é uma grande comédia. Eu também não teria acreditado se não tivesse visto com estes meus olhos maravilhados” – Bosley Crowther, The New York Times.

”A gente se aproxima dos Beatles com apreensão, pensando em penteados idiotas e Lamúrias gritadas e melancólicas. Mas A hard day’s night é um filme inteligente e com estilo, divertido em sua audácia e modernidade” – Arthur Schlesinger Jr., Show Magazine.

Enquanto A hard day’s night ainda fazia o circuito dos cinemas de primeira exibição do país, os Beatles começaram sua primeira turnê americana “de verdade” (o furacão da primeira visita tinha sido essencialmente um golpe publicitário). Desta vez, a extravagância de um mês incluía paradas em 24 cidades. A principio, pensou-se em apenas 23, começando em San Francisco e indo para o leste, mas Kansas City foi acrescentada quando Charles O Finley – mais generoso com os Beatles que com seu time de beisebol – ofereceu a impressionante quantia de 150.000 dólares por uma apresentação. Eles podiam passar perfeitamente sem isso, mas Esptein percebeu o valor publicitário da oferta e persuadiu-os a aceitar.

Outros empresários não gostaram da notícia, no entanto, e Variety observou que “outro fator negativo com os Beatles é o fato de que muitos artistas nacionais começaram a exigir o mesmo nível de cachê. É um segredo público que, assim que os Beatles assinaram o primeiro contrato por 25.000 dólares garantidos contra 60 por cento da renda, Bob Hope pediu o mesmo tipo de acerto. Antes, suas apresentações tinham um cachê garantido por volta de 15.000 dólares”.

Em pouco tempo, dinheiro algum iria parecer suficiente, pois se tornaram prisioneiros das excursões. Ostensivamente disponíveis para os fãs, na verdade estavam reclusos do mundo. Seus hotéis eram assediados, os veículos que os transportavam iam superlotados. Apesar – e talvez por isso mesmo – do séquito intercambiável de groupies (as fãs mais ardorosas), suas vidas se tornaram um indistinto quarto de hotel, com um acompanhamento invariável de muita transação.

Mas eles não eram prisioneiros apenas das circunstâncias; as próprias situações os tornavam hipócritas. Ao pensar nos tipos adoráveis de A hard day’s night, temos de nos esforçar para imaginar quem eram, na verdade, seus equivalentes na vida real. Como recorda John “quer dizer, nós tínhamos essa imagem, mas, sabe, as viagens eram uma coisa completamente diferente, as excursões dos Beatles eram como o Styricon de Fellini”. O quarteto se dedicava Cada vez mais às anfetaminas e à bebida.  Tinham de buscar satisfação de alguma forma.

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O prefeito de Cafundó queria tirar uma foto ao lado de Ringo? Ótimo. Não havia nada que os rapazes mais desejassem. A Rádio XXXX queria uma rápida entrevista com John? Claro. Não há problema. Espere só a gente arrancar aquela mocinha, a filha do prefeito de Cafundó de baixo do chuveiro dele, ok? O disc-jóquei de Cafundó, a versão local do autoproclamado quinto beatle, quer uma exclusiva com Paul?  Mas que bom. Diga-lhe para trazer as bolinhas para o quarto 1633 – e desta vez traga também duas garotas a mais para o pessoal da promoção. Desculpe, impossível entrevistar George. Ele está se levantando bem agora.

Se por um lado perderam totalmente sua privacidade, os excessos tornaram sua vida tão privada que nenhum contato humano era permitido sem aprovação prévia. Os aprovados – jornalistas -, de qualquer modo, faziam todos as mesmas perguntas, e as respostas começaram a fluir com tanta sinceridade como o sorriso de um político. Muito antes de seus lamuriosos sucessores começarem a compor lamentos fúnebres e lucrativos sobre os desgastes de uma turnê, os Beatles estavam esgotados delas.

Eles estavam seriamente preocupados com sua música. Sentiam que estavam em seu período mais fértil, mas a música não se desenvolvia. Na verdade, com freqüência pareciam estar decaindo. Em Hamburgo, as jornadas noturnas de oito horas obrigavam a mudar e crescer; mesmo a primeira excursão inglesa tinha alguns shows com horas de duração. Mas as viagens pelo mundo eram diferentes. As apresentações ficavam estritamente limitadas a trinta minutos, e a seqüência das músicas era idêntica toda noite. Na melhor das hipóteses podiam amadurecer o já feito, mas essas viagens não ofereciam condições decentes de trabalho. Os hotéis e as viagens aéreas eram de primeira classe, mas o equipamento de som era extremamente primitivo. Os Beatles tocavam normalmente em estádios imensos com equipamento que um conjunto de bar que se respeite recusaria hoje.

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RINGO: “Me perguntaram por que uso anéis nos dedos. Respondi que é porque não consigo encaixá-los no nariz.”

Não tinham escolha. Já que eram eles a inventar a excursão do rock ‘n’ roll nessa escala, a tecnologia para realizá-lo simplesmente não existia. Trabalhavam, por exemplo, sem mesa de som, e, no meio das multidões, ensurdecedoras e com os amplificadores no último volume, não conseguiam quase ouvir um ao outro. Perdiam o ritmo, cantavam fora do tom, mandavam tudo às favas e acabavam fingindo que cantavam, só mexendo os lábios. Mas ninguém se preocupava; eles eram os Beatles.

Assim, embora a agitação constante e os disparadores das câmeras perseguissem os Beatles em público o tempo todo, os desenvolvimentos musicais importantes dos anos de excursões tiveram lugar fora do palco. Nessas primeiras turnês, os Beatles eram uma banda de rock ‘n’ roll: o ritmo era tudo. A guitarra solo de George submergia, limitada às partes sem vocal, e o som dominante eram o ritmo de John e os pratos de Ringo. As harmonizações vocais eram mais incomuns (uma mistura de Everly Brothers com Little Richard e Dell-Vikings, tudo muito bem feito), mas o solo vocal era muitas vezes feito por duas ou três vozes em uníssono; o resultado era tão denso que se tornou um jogo para as fãs adivinhar quem cantava o que. Finalmente, embora os primeiros discos tivessem uma parcela relativamente pequena de material gravado sem maior cuidado, o produtor George Martim era forçado a gravar com eles no que hoje parece uma pressa irresponsável; ouçam, por exemplo, as vozes saindo de tom em Hold me tight, no segundo LP.

Mas os discos eram gravados – e, o mais importante, comprados – como álbuns, não como uma coletânea de um ou dois compactos de sucesso seguidos dos respectivos lados B e reinterpretações de outros cantores. Embora esses LPs pareçam simples demais em comparação com Sgt. Pepper ou Revolver foram eles que redefiniram o mercado musical. Antes dos Beatles, o bom senso convencional estabelecera que os jovens compravam compactos e os pais compravam álbuns. As verbas maiores – em produções luxuosas, com as cordas de Percy Faith e os Ray Charles Singers fazendo “Uuh, uH no fundo – iam, assim, para artistas “adultos” como Perry Como e Patti Page.

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PAUL: “A comoção não nos perturba mais. É como trabalhar uma fábrica de sinos. Com o tempo não se ouvem mais os sinos.”

Os Beatles, ao gravarem suas próprias composições e os clássicos da geração anterior, tinham começado a modificar essas concepções mercadológicas mesmo antes de A hard day’s night; a partir daí, no entanto, passaram a gastar mais tempo no estúdio, e seu trabalho evoluiu gradualmente, enquanto sua amplitude se expandia junto com a tecnologia de gravação. O último compacto de 1964, I feel fine, começava com um “buzz” longo de guitarra e terminava com o que parecia o acompanhamento de cães uivando. Mas o disco foi direto para o primeiro lugar na Inglaterra e nos EUA, dando-lhes segurança para continuarem suas experiências. Antes de voltar aos estúdios, porém, passaram quatro meses realizando seu filme seguinte, Help!, que estreou em julho de 1965. Retornaram à Inglaterra, contudo, em junho, quando foi anunciado que a rainha iria condecorá-los como MBEs (membros da Ordem do Império Britânico) por seus serviços ao comércio do país.

Isso provocou um esplêndido alvoroço, dos que se pensa que existem apenas nas páginas dos pasquins de humor (pelo menos, foi um caso em que a vida imitou claramente a arte). Muitos antigos MBEs devolveram suas medalhas, ofendidos, e um deles, um tenente-coronel reformado, chegou a excluir o Partido Trabalhista de seu testamento, onde constava como herdeiro. O deputado canadense Hector Dupuis falou em nome desse grupo quando escreveu que julgava que heróis de guerra não podiam ser “rebaixados ao nível desses vulgares pelintras”. George sugeriu que se Dupuis não queria mais a condecoração, “pode mandar para nós. Assim, podíamos dá-la ao nosso agente, Brian Epstein. ‘BEM’ vai bem com o nome: ‘Sr. Brian Epstein’”.

Epstein parecia mais emocionado que os Beatles pela condecoração; John, pelo menos, teve de ser convencido de que aceitá-la não iria violar nenhum de seus princípios. Mas após a cerimônia, em outubro, que lhe deu a segunda oportunidade de observar a realeza em close up, não pôde deixar de se mostrar um tanto impressionado: “Estou achando mesmo que a rainha acredita nisso tudo. Só pode ser. Eu não acredito em John Lennon, um beatle, como um se diferente de qualquer outro, porque sei que ele não é. Não passo de um homem comum. Mas estou certo de que a rainha deve pensar que ela é diferente”. E os leitores mais atentos terão notado que ele também estava um tanto alterado. Isso porque a habitual vivacidade dos Beatles pareceu desvanecer pouco antes do encontro com a rainha , e então, num banheiro do Palácio de Buckinghan, fumaram rapidamente um pouco de maconha.

No entanto, apesar de algumas risadas fora de hora, conseguiram atravessar a cerimônia sem arranhões à dignidade da Coroa. Ou à de Liverpool.

O rebuliço sobre BEM foi temporariamente eclipsado quando partiram para uma turnê de verão à França, Itália e Espanha, onde receberam as adulações agora habituais. Enquanto estavam fora, o segundo livro de John, A Spaniard in the works, veio à luz. Como o primeiro, tornou-se quase instantaneamente Best seller, mas, apesar de algumas criações maravilhosas – especialmente Jesus El Pifco, “fascistinha comedor de alho, gorduroso e amarelento” -, o livro parecia sempre igual, sem o elemento de surpresa que tornara In his own write tão especial.

Essa sorte foi compartilhada por Help! (Socorro!) – com a diferença importante de que esse filme realmente não estava à altura do anterior. Era divertido – a inspiração em James Bond permitiu algumas cenas de perseguição ótimas, e Leo McKern era um vilão espetacularmente bem retratado -, mas isso era tudo.

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E não suficiente, pois, longe da atmosfera rarefeita da beatlemania, a música pop começava a se tornar algo mais que divertimento. A transição era representada por The Byrds, conjunto folk mangué da costa oeste americana, que a Newsweek descreveu como “Beatles dylanizados”; a crítica Lillian Roxon retificou com acerto a direção da corrente, ao afirmar que eram, na verdade, “dylans beatlizados”. Os Beatles legitimaram a forma do rock ‘n’ roll, e os Byrds, seu conteúdo; na sua trilha, emergiu toda uma série de rivais americanos ao trono dos Beatles.

Alguns deles eram veteranos do universo folk de Nova York, mas, na costa oeste, The Doors exprimiam suas ameaças musculosas e plenas de mistérios, e até The Beach Boys ousavam abandonar seu pequeno carro cupê pelas sublimes confusões de Smile. A mudança se completou quando Bob Dylan insultou seis fãs adotando o som eletrificado.

O verão de 1965 foi uma estação extraordinariamente musical, com certeza a melhor desde o auge de Elvis e Buddy Holly. Entre os sucessos estavam Mr. Tambourine man, com os Byrds, Satisfaction, dos Rolling Stones, Ticket to ride, dos Beatles, e Like a Rolling Stone, de Dylan. O rock ‘n’ roll se tornou rock naquele ano; de repente, os Beatles – ainda sacudindo com Dizzy Miss Lizzy e Can’t buy me Love as garotas que gritavam no Shea Stadium – pareciam cantores de canções bobas de amor. Não obstante, eram eles a força seminal da nova música; o crítico Robert Christgau, em 1973, pagou-lhes o devido tributo ao definir “rock” como “toda música derivada primariamente da energia e da influência dos Beatles – e talvez um pouco também de Bob Dylan -, e é melhor enfiar quaisquer outros pretendentes em outro lugar”.

Pelo fim de 1965, os Beatles voltaram ao estúdio, saindo dele muito à frente de seus rivais. O lançamento de Natal desse ano, Rubber soul, é para muitos seu melhor disco. Embora continuassem a excursionar no verão seguinte, Rubber soul foi um divisor de águas. Mais do que uma afirmação que perseguiam – e certamente era isso -, representava o novo padrão pelo qual os discos seguintes dos pretendentes ao trono seriam medidos. As alusões misteriosas de  Norwegian Wood, a simplicidade cálida de In my life, as modulações harmônicas surpreendentes de You won’t see me…tudo isso acompanhado de uma riqueza e virtuosismo instrumentais que os álbuns anteriores apenas sugeriam. Mais de quinze anos depois, o disco conserva todo o seu vigor. Sem perder a garra. Os Beatles deram a Rubber soul uma profundidade e uma textura que faltavam há muito na sensibilidade pop.

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Esse álbum foi o argumento mais persuasivo de que seu futuro estava mais no estúdio que na estrada, mas ainda havia muito chão a percorrer antes de assentar a poeira. No verão europeu de 1966, ainda excursionaram pela Alemanha, Japão, Filipinas e Estados Unidos.

Nessa época, eram considerados uns esquizofrênicos musicais. Sua imaginação se dirigia para os caminhos de Revolver e Sgt. Pepper, embora ainda houvesse fãs que desejavam só gritar e atirar “feijõezinhos”. Neste ponto, pagaram a pena imposta aos pioneiros.

Como os Beatles vieram antes – eles criaram o público do rock -, os grupos posteriores já não esperavam agradar simultaneamente aos adolescentes e aos intelectuais. A maior parte se especializava, tentando tirar o máximo proveito disso. Assim, enquanto The Monkees ganhavam os jovens americanos – sendo desprezados por isso -, de grupos como o Jefferson Airplane, The Rolling Stones e The Who não se esperava que fossem bonitos e burrinhos. Os Beatles, ainda lutando para fazer tudo ao mesmo tempo, tinham de agüentar observações gratuitas como a de Hunter Thompson, de que “os Rolling Stones querem saquear nossa cidade; já os Beatles só querem pegar nossa mão”.

O que mais aborrecia, talvez, era seu papel como exemplo para a juventude – algo que nem mesmo o publicitário mais ousado tentaria usar como promoção dos Rolling Stones -, que os fazia vulneráveis aos ataques do mundo extra musical. Assim, enquanto os críticos americanos julgava o LP Yesterday and today um passo atrás (na verdade não era passo para parte alguma, mas apenas uma coletânea pouco escrupulosa de compactos e sobras de LPs britânicos feita pela gravadora americana), a direita começava a reconhecer a importância deles.

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Enquanto a força emotiva do rock ‘n’ roll se mesclava às forças emergentes que viriam a ser designadas como “o Movimento”, a direita descobria comunistas emboscados nos amplificadores dos Beatles. Os animados membros da Deixem a Liberdade Soar (ramificação da Sociedade John Birch no Estado de Indiana) denunciaram o “processo destrutivo” conduzido pelos Beatles, argumentando que “cientistas comunistas descobriram que música de ritmo sincopado (Na música, a sincope indicaria os desvios no padrão rítmico em que o som – articulado na parte fraca do tempo ou do compasso – prolonga-se para a parte forte do tempo seguinte, como música africana, por exemplo, ou o samba como conhecemos) nas passagens agudas, tocada com uma batida insistentemente regular, a ponto de conduzir ao estado de frenesi, pode produzir efeitos histéricos nas pessoas mais jovens, como se estas acabassem desejando correr loucamente para duas direções ao mesmo tempo”. Essa profunda análise foi, digamos assim, amplificada por um pastor itinerante da Cruzada Cristã de Billy Hargis. Prevenindo que “a bateria é o segredo – o pequeno Ringo!”, o Reverendo David Noebel galvanizou congregações com a ameaça de que “no estado de excitação a que os Beatles conduzem esses jovens, estes farão qualquer coisa que lhes seja ordenada. Um dia, quando a revolução amadurecer, os comunistas levarão os Beatles à TV para hipnotizar em massa a juventude americana. Isso”, concluía numa frase que constituía uma verdade óbvia, “me faz perder o juízo”.

Esses ataques a bodoque (atiradeira que se usava antigamente para caça) e tacape (Arma ofensiva, espécie de clava usada pelos indígenas) eram mais divertidos que dolorosos; com certeza não surtiam efeito algum sobre as sempre crescentes multidões que iam ver os Beatles. Mas, na parada em Manila, na excursão de 1966 ao Extremo Oriente, enfrentaram um motim de espécie muito menos divertida que as agressões anteriores.

As ruidosas fãs americanas podiam querer arrancar os botões de suas roupas; os filipinos, porém, queriam esquartejá-los. Parece que os rapazes caíram no desagrado da mulher do ditador-presidente Marcos ao deixar de comparecer a um almoço no palácio presidencial. Eles alegaram não ter recebido o convite, mas a Sra. Marcos considerou sua ausência uma atrevida afronta à honra das Filipinas. Diante da curiosa impassibilidade da polícia nativa, tropéis de estudantes alvejaram com socos e pontapés os Beatles enquanto estes passavam correndo a toda para o avião. Mais tarde, o Presidente Marcos se justificou pela “violação da hospitalidade”; John, diplomático como sempre replicou: “Eu nem sabia que eles tinham presidente”.

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Foi outra tirada de Lennon que causou a mais bizarra história de caça aos Beatles, nos EUA, durante o verão americano de 1966. Em fevereiro, numa entrevista a Maureen Cleave, do London Evening Standard, John declarou: “O cristianismo vai passar. Vai encolher até sumir. Não preciso discutir isso, sei que estou certo.

“Neste momento somos mais populares que Jesus Cristo”. Esses comentários foram feitos sem emoção, durante uma entrevista séria a uma publicação responsável, mas logo escaparam do contexto, ao serem reproduzidos por uma frívola revista para adolescentes, a Datebook. Barulho à vista! O tipo de indivíduo que sempre soube que os Beatles eram uns comunistinhas se deliciou ao ver confirmada a asserção de que eram também uns ateus sem fé nem deus.

Defrontando-se com estações de rádio que cortavam da programação as músicas dos Beatles (principalmente, mas não só, no sul dos EUA) e com promessas de “fogueiras beatles” gigantescas, Brian Epstein atravessou o Atlântico a jato para trazer palavras conciliadoras. As primeiras destas, porém, só fizeram aumentar a confusão; ao New York Post, Brian disse que a declaração de John era “séria, e foi mal interpretada”. A tempestade aclamou mais tarde, quando John se justificou numa entrevista coletiva, e sua explicação foi aceita in absentia pelo jornal oficial do Vaticano, L’Osservatores Romano. (Um editorial dos céus mais impressivo, no entanto, foi um raio que colocou a rádio texana KLUE fora do ar depois que esta organizou uma fogueira de discos dos Beatles). Em retrospecto, os comentários feitos pelos quatro Beatles contra a Guerra do Vietnam na mesma entrevista coletiva parecem hoje muito mais importantes. Independente da causa (e a declaração de John não deve ser descontada), as platéias das excursões de 1966 foram um pouco menores que as do ano anterior. Até em Nova York, que dificilmente se poderia considerar um bastião do cristianismo fundamentalista, havia lugares vagos no Shea Stadium. E, embora duas garotas de Staten Island ameaçassem jogar-se do 22º andar de um hotel se não lhes permitissem ver os Beatles (após meia hora de conversa, a polícia as agarrou e levou para tratamento num hospital próximo), havia adolescentes na multidão que foi esperá-los no aeroporto.

Assim, atravessaram o país, respondendo a perguntas sobre cristianismo em toda parte, até chegarem a San Francisco, onde fizeram, a 29 de agosto de 1966, a última apresentação dos Beatles num palco.

As rádios que transmitiam a apresentação não perceberam isso; Brian, que esperava fazê-los voltar atrás, insistiu em que a decisão não fosse revelada antes de poder notificar seu velho empresário britânico. Segundo todos os relatos, no entanto, a última apresentação dos Beatles foi, musicalmente, tão sem brilho como as imediatamente anteriores. Eles estavam exaustos – tinham atravessado a duras penas um continente, escapando de todas as fãs (com exceção de umas poucas escolhidas) – e aborrecidos. Até Ringo, que chamou esses anos “a melhor época da minha vida”, admitiu as frustrações: “As jornadas de trabalho eram de 24 horas, sem intervalo. Imprensa, pessoas tentando entrar no quarto de hotel da gente, escalando 25 andares pela calha de chuva se continuasse desse jeito, eu teria ficado louco”.

Finalmente, superaram o nível musical exigido pelos fãs que assistiam aos shows. Uma repassada das canções que tocaram nessa turnê é instrutiva, pois estavam repleta de temática “eu”, “amo”, “você”, ”quero”, ”preciso”, ”desejo”, ”lábios”, que vinha desde os tempos de colégio de John e Paul. Ainda que pudessem se ouvir no palco – e mesmo que não tivessem começado a sentir um desprezo fatal por suas platéias fáceis demais de agradar -, era o momento de parar. Nunca poderiam voltar a ser o conjunto que haviam sido, e, pelo menos desta vez, deram o fora com muita dignidade.

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As razões por que as excursões se tornaram musicalmente cada vez mais sem sentido para os Beatles ficaram óbvias com Revolver. O álbum, lançado imediatamente após o final da turnê, elevou consideravelmente o nível atingido em Rubber soul: era praticamente irreproduzível ao vivo. O desnível contextual entre sua velha música e a nova continua a alargar-se – como disse Paul: “Não dá pra compor músicas de quinze anos quando a gente tem vinte, porque já não pensamos mais como aos quinze anos”. Mas foram os recursos técnicos que fizeram de Revolver um choque – Paul novamente: “Tem sons ali que ninguém fez ainda… ninguém mesmo… nunca”.

Talvez. Certamente ali estavam sons que os Beatles nunca tinham feito antes; de fato, Yellow submarine, o compacto tirado do LP para coincidir com a última viagem, quase não tem música beatle típica. Há uma base ultra-simples levada pelo baixo e a bateria, acompanhada por acordes tocados acusticamente, mas a “música” é construída na verdade por uma estranha mistura de efeitos de som: banda de metais, ondas do mar e recipientes de vidro. No lado B, Eleanor Rigby, o conjunto nem aparece, substituído por um octeto de cordas arranjado por George Martin.

A partir de Revolver, com certeza (e talvez de Rubber soul), Martin assumiu um papel diferente na produção dos discos dos Beatles. No inicio, ele realizava milagres sonoros – fazendo o grupo soar mais alto que qualquer outro artista sem aumentar o volume acima dos níveis de gravação nem irritar as estações de rádio. Pela época de Revolver, seu trabalho tinha se modificado. Não se limitava mais capturar um som existente; ao contrário, inventava equivalentes para os sons que existiam na cabeça dos Beatles. Pode-se dizer que nessa época ele deve ter ficado profundamente grato à experiência como produtos dos discos do velho Goon show.

Sua formação musical mais tradicional também se tornou mais útil nesta fase da carreira dos Beatles, pois, apesar de sua crescente ambição, nenhum deles escrevia música. (Apenas George estava aprendendo a notação musical do Oriente, mas não por mera curtição.) Alguém tinha de saber falar a linguagem dos músicos clássicos que começavam a se revezar nas gravações dos Beatles. Esse alguém era Martin.

E, diga-se de passagem, enquanto ele dava o melhor aos Beatle, estes refreavam o convencionalismo que havia em Martin. Este era um concertista de oboé (é instrumento musical de sopro, classificado como um aerofone, membro da família das madeiras e de palheta dupla), mas como compositor (basta ouvir sua participação nas trilhas sonoras dos equivalentes ao de um cartão de boas-festas engraçadinho. Por outro lado, em Yesterday e Eleanor Rigby, os contrapontos de seus arranjos de cordas contrabalançavam a tendência das letras à insipidez. Seguramente, ao trabalhar com os Beatles nesse período, ele se tornou o primeiro produtor a trabalhar um disco faixa por faixa – criando não apenas um novo produto, mas uma nova arte.

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Revolver era um exemplo excelente da nova forma. Somando-se à – e às vezes substituindo-a – base guitarras-baixo-bateria, o disco inclui sopros, cordas, instrumentos indianos, arranjos vocais densos usando muitos canais, e, como afirmou um crítico, “um filtro que faz John Lennon parecer Deus cantando através de um megafone”.

Finalmente, o álbum é também significativo ao marcar explicitamente a distância cada vez maior entre os principais compositores do grupo. Enquanto Paul elaborava a técnica narrativa, de Drive my car até Eleanor Rigby, e a de composição de baladas, de Yesterday até Here, there and everywhere, John estava completamente noutra.

“Tradicional” não é bem um termo para designar os que têm apenas a velocidade como vício; assim é melhor falar dos primeiros Beatles como “conservadores”. Eles tomavam bolinhas apenas para agüentar o ritmo, e isso era tudo. Nem mesmo tinham provado maconha antes de Bob Dylan baratinar John após a apresentação do primeiro em 1964, no Albert Hall. Essa ocorrência envolveu mais de uma substância nova, pois introduziu-os num estilo totalmente novo de usar drogas. A explicação racional de uso medicinal para o consumo de pílulas por eles não se aplicava mais neste caso. A maconha era menos uma muleta que uma recreação para expandir a consciência.

Eles a fumavam com o mesmo entusiasmo que tinham por qualquer outra coisa – o que significa que se entregam de corpo e alma à nova experiência. Help! foi rodado em meio a uma nuvem de fumo, e não demorou que imitassem os milhares de colegas que já tinham dado o próximo passo químico lógico.

John e George foram os primeiros a tomar ácido, que lhes foi dado, curiosamente, por seu dentista, numa festa, após o jantar, em 1965.

Então, durante uma estada em Los Angeles John, George e Ringo começaram a consumir ativamente a droga. Paul, que não se decidiu a prová-la, se sentia um pouco por fora. Mais tarde, entretanto, também entrou na roda, assim como Brian, Neil Aspinall e praticamente todo o mundo das relações dos Beatles. Ninguém, contudo, foi tão fundo como John.

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Nas suas próprias contas, John fez mais de mil viagens com ácido. Na sua famosa entrevista de 1970 a Rolling Stone, disse: “Eu costumava simplesmente comer aquilo o tempo todo”, e não parecia estar exagerando. Como era de esperar, houve conseqüência. Algumas se fizeram sentir no casamento – Cynthia Lennon escreveu que a relação começou a se deteriorar “no momento em que a cannabis e o LSD cavaram seu fosso insalubre em nossas vidas”. O mais assustador eram as crises íntimas que o oprimiam, trazendo a sensação de inutilidade. John recorda uma tarde em que o assessor de imprensa Derek Taylor tevê de conversar com ele durante uma dessas depressões. “Ele acabou dizendo algo como: ‘Você é ótimo! ’, e ficou contando as músicas que eu tinha composto. ‘Você fez esta’, e ‘Você disse tal coisa’, e ‘Você é muito inteligente, não tenha medo’.”

Mas, apesar dessas subidas e descidas pela escada do ego, John continuou a compor mesmo nos períodos dos maiores excessos. Muitas palavras inspiradas pelo ácido apareceram nos discos dos Beatles, e Revolver apresentava um espectro típico: And your bird can sing – embora a música seja no estilo beatle, a letra parece deliberadamente impenetrável. Já Tomorrow never knows é uma síntese brilhante das pesquisas orientais de George e das viagens anteriores de John. É uma música de época, mas muito representativa.

Nos meses após Revolver, passaram a desenvolver seus interesses musicais separadamente. E a levar vidas próprias também. Agora três dos quatro eram casados, e Paul parecia perfeitamente estabelecido dom a atriz Jane Asher. Após os anos de estrada e de estúdio, encontravam o que fazer em casa.

Eles também tinham um mundo – que a vida como Beatles ajudou a criar – a explorar como indivíduos. John foi para a Alemanha e a Espanha fazer um papel secundário no novo filme de Lester, How I won the war (Como ganhei a guerra); Paul fez uma trilha sonora inexpressiva para uma comédia dos Irmãos Boulting, The family way (que por sua vez merecia ainda menos); Ringo e Maureen tiraram férias na Espanha, voltando para decorar a casa nova; e os Harrison foram para a Índia.

Enquanto os Beatles estavam fora, divulgou-se a notícia de que não iriam mais excursionar. Nenhum grupo pop até então sobrevivera apenas com os discos; assim, alguns repórteres declararam a morte dos Beatles. Esse era o tom de um longo artigo do Sunday Times de Londres em novembro de 1966. “A semana passada” começava a matéria, “tudo indicava que o fenômeno Beatles está terminando… no sentido de que o melhor de sua música era uma expressão de puro prazer, por serem um grupo muito unido de jovens divertidos e atraentes. A maturidade, com o desvanecer de seu narcisismo coletivo e o desabrochar de interesses particulares, vem determinar o fim desses fenômenos.”

Não tão já, Sunday Times. Um mês e meio depois da publicação desse artigo, os Beatles entravam no estúdio para começar a trabalhar no que muitos consideram sua obra-prima, Sgt. Pepper’s Lonely Club Band.

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RINGO: – “Somos desprentensiosos, sem afetação e britânicos até a medula”.

Seu primeiro álbum tinha sido gravado – ao que parecia, há uma geração – num só dia, ao custo de 2000 dólares, Sgt. Pepper iria tomar quatro meses e custar 100.000 dólares. Hoje, esse custo mal cobre o orçamento da cocaína dos supergrupos, mas em 1967 os negócios da música ainda eram feitos sobre as velhas bases. Os conjuntos pop eram, por definição, efêmeros, e a ordem era conseguir deles o máximo enquanto ainda tinham um lugar ao sol. Dois LPs por ano – um pelo Natal e outro no meio do ano (verão no hemisfério norte) – eram a expectativa mínima.

Até então os Beatles tinham cumprido esse programa facilmente: nos EUA, nos dois anos e meio entre o primeiro LP e Revolver, sua obra foi dividida em onze álbuns, acompanhados de treze grandes turnês e dois longas-metragens. O intervalo de dez meses entre Revolver e Sgt. Pepper, sem precedente, deixou os fãs na expectativa de um rompimento definitivo. Uma sugestão tentadora do que estava por vir foi o lançamento do compacto Penny Lane/Strawberry Fields forever, em fevereiro de 1967.

Esse par de memórias de Liverpool continuava a refletir as diferenças entre John e Paul, surgidas em Revólver. O fato é que também elas faziam sua música evoluir: o fato de Paul tocar trompetes em Penny Lane, por exemplo, era muito mais evocativo e menos estritamente musical que os metais em Got to get you into my life. Com todo o seu charme considerável, Penny Lane é uma nostalgia sem dor. Em comparação, Strawberry Fields, de John, é perturbadora: os versos praticamente sem rimas fazem círculos uns sobre os outros num nó de contradições que induziram os fãs a um debate sem fim sobre o seu sentido.

O mais perturbador em Strawberry Fields, todavia, era talvez de sentimento nos vocais de John; é como se ele, ao invés de tentar nos enredar com algum significado oculto, estivesse desesperançadamente confuso consigo mesmo, Strawberry Fields é mais um mistério que uma charada.

Seu timbre vocal esquisito resultou de um dos feito técnicos de Martin. O grupo tinha gravado a base instrumental e os vocais, quando John, ouvindo a fita em casa, percebeu que o som não era o que ele queria. Estava procurando um clima de sonho; a gravação não correspondia, então pediu a Martin para tentar um arranjo de cordas. Este ficou melhor, mas ainda não era perfeito; o que ele queria era algo da primeira versão e algo da segunda. Martin disse que era impossível; elas tinham sido gravadas em andamento e tons diferentes. Mexendo com as gravações, entretanto, Martin descobriu que se reduzisse a velocidade da primeira poderia combiná-la com a segunda, com pequeníssima diferença de tom. O resultado foi uma ligeira distorção na voz, que aumenta o efeito da música.

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Em conjunto, as duas canções prometiam tanto que os fãs exigiam mais. A garota que crescera gritando pelos Beatles e os adultos seduzidos por A hard day’s night se uniram para criar um novo tipo de audiência. Havia um exército de fãs esperando, não dançar ou gritar, mas ouvir. Muito loucos, de preferência.

É necessário lembrar aqui que os Beatles não estavam na vanguarda do uso das drogas. Durante o verão de 1967, todo mundo, ao que parecia, fumava. E todo mundo, sob a influência cerebral da maconha, ouvia a música que explodia ao redor – The Airplane, The Dead, The Mamas and the Papas, Big Brother, The Who, os Stones… mas ainda não os Beatles.

Finalmente, em junho – de mãos dadas com o proclamado Verão do Amor -, Sgt. Pepper chegou. Foi uma semana maravilhosa. Um ano depois, o critico e fã Langdom Winner (escrevendo sobre o disco) relembrava: “Eu estava dirigindo na Interestadual 80. Em cada cidade que parava para gasolina ou comida – Laramie, Oglala, Moline, South Bend -, as melodias vinham de algum transistor ou vitrola portátil ao longe. Foi coisa mais admirável que já vi. Por um instante, a consciência ocidental, mesmo fragmentada irreparavelmente, era unificada, pelo menos na cabeça dos jovens”.

E, nesse verão mágico, todos eram jovens. Os guetos hippies dos East Village e de Haight Ashbury regurgitavam de pacifistas, adeptos do amor e da compreensão (e também, talvez, de um bom ácido), mas estes eram apenas uma parte da história. No West Side de Nova York – e nas cidades universitárias dos EUA -, o tema em pauta não era tanto a paz, mas uma guerra que se travava do outro lado do mundo. Manifestações pela paz se multiplicaram pelo país, numa mistura surpreendente de Jeans desbotados e ternos de algodão, todos atrás da música que os Beatles iam criando. “Eu sou ele como você é eu e nós estamos todos juntos”, assim começava a letra de I am the walrus.

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A ilusão era válida, e nós a levamos ao ponto de destituir um presidente – e, além disso, de criar uma análise de texto admirável. Alguns fãs, antigos universitários treinados na corrente da Nova Crítica, punham-se a perseguir animadamente uma imagem através de uma toca de coelho, saindo para a floresta do outro lado. A floresta, entretanto, já estava repleta de gente que não aprendera a associar imagens na escola, mas fumando maconha e tomando ácido. Assim, todo o mundo ficou sabendo o esperto truque de “Lucy in the Sky with Diamonds”.

Fomos instigados aos píncaros da exegese (Comentário para esclarecimento ou interpretação minuciosa de um texto ou de uma palavra. Aplica-se especialmente em relação a Gramática, à Bíblia, às leis)pelos próprios Beatles; Paul, que antes tinha a imagem do “bonitinho” do grupo, revelou-se à revista Life que consumia ácido. Apesar de a confissão de Paul – logo seguida pelas de Brian, George e John – ser uma migalha perto da polêmica sobre John e Jesus, os poderes competentes tiveram a previsível reação negativa. A Day in the life teve execução proibida na BBC, e o vice-presidente americano Spiro Agnew tentou convencer as rádios do país a censurar With a little help from my friends. A direita troglodita reagiu ainda mais rudemente. O infatigável beatleólogo Nicholas Schaffner cita este esplêndido exemplo: “’Nem Lennon nem McCartney eram bons alunos na escola’, escreveu um tal Dr. Joseph Crow, ‘nem tiveram nenhum tipo de formação musical. O fato de comporem algumas das músicas do grupo compara-se a alguém que não soubesse física nem matemática e inventasse a bomba atômica. Pela sua excelência técnica, é possível que essa música seja arregimentada por cientistas comportamentais em algum banco de idéias. Não tenho a menos idéia se os Beatles… estão sendo usados por pessoas com recursos altamente sofisticados, mas na verdade isso não faz nenhuma diferença. Os resultados é que contam, e os Beatles são os flautistas mágicos a criar promiscuidade, uma epidemia de drogas, consciência de classe para os jovens e uma atmosfera propícia à revolução social’”. Nossa, e eu que pensei o tempo todo que fosse George Martin.

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Na realidade, ao mesmo tempo em que toda essa controvérsia psicodélica se desenvolvia, os Beatles tinham dado um intervalo às drogas para procurar um barato natural. Nesse esforço, pelo menos, George era o líder. No intervalo entre a última turnê e a gravação de Sgt. Pepper, ele e sua mulher, a modelo Patti Boyd, foram à Índia, onde George ia estudar com o concertista de sitar Ravi Shankar; lá, ficaram fascinados pela riqueza da vivência religiosa indiana. Na volta a Londres, Patti entrou para o Movimento de Regeneração Espiritual, e sempre emprestava seus livros e panfletos a George.

George sempre foi ao mesmo tempo muito receptivo (já se sentira atraído por estudantes alemãs “diferentes” como Astrid) e obstinado. E, assim como sangrava os dedos para aprender a tocar violão, buscou a sabedoria espiritual de forma monomaníaca. Assim, devorou um livro atrás do outro, comunicando entusiasticamente tudo o que aprendia aos outros Beatles. Acabou indo procurar um guru – na Cornualha, topou com um que o fez ficar no alto de uma montanha várias noites -, mas não encontrou. Patti ouviu dizer que o Maharishi Maheshi Yogi vinha a Londres para uma conferência; contou isso a George, e os quatro decidiram ir ouvi-lo.

O Maharishi tinha sido físico e trabalhara na universidade; suas viagens espirituais começaram já na idade adulta. Por isso, talvez, estava familiarizado com a mentalidade ocidental o bastante para achá-la divertida. Quanto mais não fosse, a Meditação Transcendental, Marca registrada do Maharishi, ofereceu aos Beatles uma oportunidade de desacelerar o ritmo – uma oportunidade de que John, em particular, precisava.

A conferência os cativou, assim como a figura sorridente e animada do Maharishi; nos anos febris de excursões hermeticamente fechadas, sua vida se afastara muito da realidade. Quando surgiu a oportunidade de um retiro de fim de semana no País de Gales, os quatro se animaram. Dois dias depois foram para lá, de trem. Em si, isso já era um acontecimento; durante anos não tinham ido à parte alguma em transporte público. A viagem parecia o sinal de uma nova etapa em seu desenvolvimento.

À chegada, enfrentaram a inevitável entrevista coletiva (durante a qual tentaram deixar claro que não encaravam o retiro como uma farsa nem domo um golpe publicitário), e se misturaram o mais anonimamente possível aos outros trezentos alunos. Os repórteres voltaram no dia seguinte, à hora do almoço, dessa vez trazendo notícias: Brian tinha morrido por dose excessiva de pílulas.

Ainda estavam reagindo ao choque – e às voltas com a especulação de que Brian podia ter se suicidado -, quando o Maharishi os chamou aos seus aposentos particulares. De acordo com sua filosofia, lembrou-lhes que choro e lamentações não trariam Brian de volta; na verdade, disse, o luto poderia libertar vibrações que prenderiam o espírito de Brian, ao invés de deixá-lo erguer-se para o plano espiritual seguinte. Em vez disso deviam ficar alegres, para que Brian encontrasse a alegria. Reconfortou-os, acabou fazendo com que rissem e despediu-os.

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Enquanto os Beatles evoluíam de ídolos dos jovens a xodó dos intelectuais psicodélicos, o relacionamento com Brian ia mudando. A preocupação obsessiva deste com o detalhe – que tanto ajudou nos anos de excursões – tornava-se um aparente incômodo na vida de estúdio. Eles sentiam que não havia necessidade de planejar o futuro, de economizar. Brian se tornara dispensável – ou, ainda pior, um empecilho para as novas idéias que tinham sobre sua liberdade artística.

Embora os Beatles se sentissem livres com o fim das turnês, Brian se sentia sem objetivo. Num momento da última apresentação, em San Francisco, perguntou a um amigo: “E agora? O que faço da vida?” Continuou envolvido nos negócios dos Beatles, mas não era a mesma coisa. Não apenas os interesses deles estavam em outra órbita; eles próprios também. Dias, até semanas, passavam sem se verem ou falarem. O laço que os unia começava a se desfazer.

Durante uma viagem de negócio a Nova York em 1967, por exemplo, Epstein foi surpreendido por uma premonição de morte. Os Beatles estavam em Londres, trabalhando (e gastando dinheiro) na idéia cada vez mais elaborada que tinham para a capa de Sgt. Pepper, e Brian – sem querer interrompê-los – escreveu seu último desejo, pedindo a um amigo que o entregasse a eles assim que seu avião caísse. O desejo era: “Embalagem de papel marrom para Sgt. Pepper”.

O desejo não foi transmitido, mas simboliza a crescente rachadura entre Brian e os Beatles; ele tinha começado vendo neles coisas que eles nem sabiam que tinham. Quando chegaram a Pepperland, já tinham suas próprias visões.

Ainda assim, a morte foi um choque, e um alivio por não ser suicídio. O veredicto “acidental” lhes permitiu levar a vida sem Brian livres de culpa. Isso, mais os conselhos do Maharishi, os fez sentir, na frase suave de Cynthia Lennon, “como se (Brian) tivesse sido posto na terra para fazer um trabalho que agora findara”.

Deram uma entrevista coletiva para anunciar que dali em diante passariam a gerir eles mesmos seus negócios. John, porém, disse mais tarde que, quando Brian morreu, “eu sabia que estávamos num beco sem saída. Realmente, não tinham nenhuma ilusão quanto à nossa capacidade de fazer outra coisa que não fosse música. Eu estava assustado. E pensei: ‘Penamos muito para chegar a este ponto’”.

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JOHN: – “Acabamos sendo um cavalo-de-tróia. Os “Fab Four” foram direto para o primeiro lugar e então começaram a cantar sobre drogas e sexo”.

No primeiro projeto que os Beatles levaram avante sem Brian, Paul assumiu a liderança, Magical mystery tour parecia uma evolução natural. Assim como dirigiam cada vez mais suas próprias gravações, podiam começar a dirigir seus filmes. A diferença é que já faziam música profissionalmente há quase uma década antes de Sgt. Pepper, mas tinham pouca experiência com cinema. Mesmo assim, um mês após a morte de Brian, embarcaram na Magical mystery tour.

No informe à imprensa anunciando o filme – planejado como um especial de sessenta minutos para TV – John os descreve como “mágicos (transformando) a Mais Comum Viagem de Ônibus numa Excursão Mágica de Mistério”, o que significa que um ônibus lotado de gente “comum” faria o que os agentes de viagem britânicos anunciam como “excursões de mistério” – o equivalente aproximado às viagens marítimas chamadas “cruzeiro para o desconhecido” -, concretizando assim a experiência psicodélica de suas vidas.

A idéia de um filme sobre uma viagem de ônibus ocorreu a Paul em abril, quando estava de férias nos EUA; embora a idéia de Paul, os outros se entusiasmaram bastante com o projeto. Mas a decisão de contratar o menor número possível de técnicos e escrever o script, escolher o elenco, dirigir e montar o filme eles mesmos foi um sério engano. Aparentemente, receavam que sua falta de familiaridade com o cinema pudesse levar algum “expert” a roubar-lhes o principal do filme. Não apenas não sabiam em quem confiar, como também não sabiam o suficiente para confiar em alguém.

Contudo, partiram corajosamente para duas semanas de filmagens em Devon e na Cornualha. Paul, pelo menos, pareceu achar que tudo tinha ido muito bem: “Nos primeiros dias, quando saímos com este ônibus grande cheio de gente, não forçamos a barra, deixamos o gelo quebrar devagar, todo mundo foi sabendo o que se passava. Depois, tudo começou a acontecer. Claro que não falávamos a língua deles quando dávamos instruções aos câmeras e ao pessoal do som, e eles estranharam um pouco no começo. Mas logo ficaram tão entusiasmados como todos nós”.

Alias, os Beatles ficaram tão entusiasmados que, quando chegou a hora de fazer a edição, sabiam tudo sobre filmagem. Paul se dedicou pessoalmente a essa tarefa – Davies narra que os outros estavam presentes, mas “normalmente ficavam cantarolando junto com um bêbado de rua que andava pelas salas de montagem” – e reapareceu onze semanas depois com o produto final, bem a tempo para a programação de Natal da BBC.

Os críticos detestaram. Na verdade, já que era a primeira oportunidade que tinham para desancar os Beatles por alguma coisa, pareciam sentir um prazer especial nisso – qualificando o filme de “pavoroso, ingênuo, um blefe, nonsense, deprezível”. Na seqüência desses ataques furiosos, a NBC cancelou o contrato de 1 milhão de dólares para passar o filme na TV americana.

Naturalmente, Paul foi o que mais se abateu, e assumiu a tarefa de responder às críticas, dizendo: “Achamos o título já explicava tudo. Não havia roteiro nem planos definidos. Isso era de propósito. Adoramos a fantasia, e tentamos criá-la no filme”. A seguir, obstinadamente, anunciou os novos planos: “Vamos fazer outro filme”. E, no estilo bem-humorado dos Beatles, perguntou: “O filme foi tão ruim assim comparado com o resto da programação de Natal? A mensagem da rainha não parecia uma obra de arte, com certeza”.

Podemos suspeitar que a TV inglesa deve ter mesmo mostrado coisas piores naquele ano, Magical mystery tour – especialmente quando visto em salas especiais por platéias prevenidas de que não é a maior coisa já surgida desde a invenção do pão de forma em fatias (ou mesmo desde Help!) – não deixa de ter seus momentos agradáveis. A evocação de Busby Berkeley durante Your mother should know, por exemplo, é no mínimo maravilhosa. Mas é verdade que esses momentos estão distantes uns dos outros; ao filme não faltava mistério, e sim magia. Sua importância capital para a história dos Beatles é a ascensão de Paul como líder pós Brian do grupo.

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Pode-se julgar que Magical mystery tour tenha sido uma demonstração suficiente de amadorismo, mas não ficaram nisso. Numa decisão cuja ingenuidade talvez fosse maior que os desacertos do filme, decidiram que homem algum de terno e gravata voltaria a gerir suas vidas, Brian tinha sido OK – afinal, era Brian -, mas com certeza estranho alguma ocuparia seu lugar. Além disso, eles eram os filhos dos anos 60, além de seus criadores, e compartilhavam o vivo desprezo da época pelos homens de negócios. Em conjunto, começaram a planejar eles próprios suas finanças.

E começaram a seguir essa política abrindo a Apple Boutique, feericamente decorada, em Londres. Porém, antes de darem os passos legais para formalizar o controle sobre seu império fiscal, fizeram uma pausa, também no típico estilo dos anos 60, para um momento de descanso espiritual. Partiram da Inglaterra em fevereiro, na que seria sua última viagem juntos. Seu destino geográfico era Rishikesh, na Índia, onde continuariam os estudos com o Maharishi.

O curso tinha uma duração prevista de no mínimo três meses, Ringo e Maureen ficaram dez dias, até que ele declarou que tudo aquilo lhe lembrava uma colônia de férias ou centro esportivo os em que trabalhava nos velhos tempos – além do mais, a comida era muito condimentada. Paul, que a principio encontrou um ambiente relaxado propício para compor, ainda ficou algumas semanas. Quando ele e Jane partiram, contudo, disse aos repórteres que o Maharishi era “uma boa pessoa”, mas “só que nós não vamos transar mais com ele”.

John e George permaneceram. Eles também estavam compondo muito – grande parte desse trabalho apareceu no “Álbum Branco” -, e a meditação parecia assegurar os benefícios espirituais, ou pelo menos emocionais, que buscavam. Mas, com ou sem razão, acabaram convencidos de que o Maharishi tinha desígnios bastante terrenos em relação a uma de suas aplicadas colegas de estudo, a atriz Mia Farrow. Indiretamente, confrontaram-no com essa acusação, e, como ele não fosse capaz de dar uma resposta satisfatória, resolveram voltar a Londres. Ali, John proclamou que o método do Maharishi nada mais era que “água colorida”, e compôs Sexy Sadie em sua des-honra.

George, porém, sentiu a experiência de forma diferente. Embora desapontado com a pessoa do Maharishi, sentiu que o Ocidente continha uma verdade central que ainda valia a pena procurar. Um problema, pensou ele, é que a disciplina do Maharishi era fácil demais de seguir, e, em Londres, George se submeteu aos programas, mais rigorosos, da consciência de Krishna. Sem qualquer intenso deliberado, ele dava o primeiro passo para separar os Beatles.

Até ali, para cada um deles, nada havia de mais importante que os outros três. Mas, quando George começou a trilhar  seu próprio caminho para a iluminação, deixou os companheiros para trás. O “mundo real”, disse ele a Davies, “é uma ilusão. Foi criado por mentes terrenas. Não importa o que ocorra, o plano não é afetado, mesmo com guerras ou bombas atômicas. Nada disso importa. Só o que acontece dentro de nós mesmos importa”.

Outra coisa importante para George estava acontecendo dentro dele mais do que tinha imaginado. Desde que tinham parado com as turnês, ele começava a rivalizar com John e Paul como compositor – pelo menos em termos de quantidade. Embora o espaço maior ainda fosse dos dois, queixou-se amargamente a um amigo de que apenas uma de suas canções tinha entrado num compacto: The inner light, e ainda assim como o bem-merecido lado B de Lady Madonna.

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Enquanto na cabeça de George fermentavam ao mesmo tempo essa zanga reprimia e a paz de Krishna, os planos de negócios dos Beatles progrediam. John e Paul foram aos EUA em meados de 1968 para celebrar a formação de seu último negócio: Apple Corps, Ltd.Sentado num junco chinês no rio Hudson, Paul proclamou a Apple uma espécie de “comunismo ocidental”, a companhia através da qual os Beatles não apenas governaram sua vida, mas também trariam alegria à vida dos outros. O objetivo, John explicou, era ver “se conseguimos liberdade artística numa estrutura empresarial, ver se podemos criar coisas sem vendê-las a um preço três vezes maior que o custo”. Numa coda (é a seção com que se termina uma música. Nesta secção o compositor ou arranjador poderá ou não utilizar ideias musicais já apresentadas ao longo da composição) Paul assinalou que os Beatles estavam “na feliz situação de não precisar de mais dinheiro, assim, pela primeira vez os patrões não estão no negócio pelo lucro. Se alguém vier e disser: ‘Eu tenho um sonho assim, assim’, eu responderei: ‘Aqui está o dinheiro. Vá e concretize o sonho’”.

O extraodinário não é tanto que houvesse centenas de sonhadores esperançosos que acreditaram nessa promessa, mas que os próprios Beatles parecessem acreditar nela; e, como se essas declarações à imprensa não fossem bastante claras, pagaram anúncios nas publicações de música britânicas pedindo a “músicos não-descobertos ainda” que mandassem suas fitas para “Apple Music, 94 Bakes St., Londres W1”.

O Comunismo Ocidental lidou com a conseqüente inundação de fitas com pouca eficiência, deixando de ouvir a maioria delas. Os que queriam apresentar-se pessoalmente tinham maior dificuldade. Derek Taylor, assessor de imprensa da Apple, narrou em suas memórias casos de típicos visitantes da Apple, entre os quais um certo Hugh Blackwell, que queria 50.000 libras “porque ele se transformara em todas as pessoas que aparecem em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, e além disso era Popeye, o Marinheiro, e mais não sei quem, e precisava de cada centavo disponível para colocar todo esse amálgama (Amálgama é uma liga do mercúrio com outro metal, e tem diversas funções, por exemplo, o amálgama de estanho serve para espelhar o vidro, amálgama é também utilizado na odontologia. Amálgama é também o nome que se dá à mistura de pessoas ou coisas heterogêneas. Em lingüística, amálgama é também a mistura de duas palavras com o objetivo de criar uma nova.) num filme”.

Os Hugh Blackwells da vida podiam, como as fitas, simplesmente não ser ouvidos, mas outros – principalmente velhos amigos e conhecidos – receberam ajuda. Alguns receberam mais do que os Beatles tinham planejado e montaram um fluxo de caixa diretamente da organização – especialmente na Apple Boutique – para o seu bolso.

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Em julho, finalmente, os Beatles perderam a paciência e fecharam a loja (pelo menos isso foi feito com estilo: as mercadorias simplesmente foram dadas a quem entrasse na loja).

Para variar, foi Paul quem informou o que ocorria ao pessoal da Apple. Nesse ponto, os outros Beatles vinham perdendo o interesse, e Paul se incumbia de zelar pelo escritório e ver se havia papel higiênico suficiente nos banheiros. Apenas sua presença, no entanto, não bastava para estancar a hemorragia contínua nas finanças, e quando se fez o balanço do primeiro ano da Apple (naturalmente, isso só foi feito cerca de dois anos), os contadores tiveram de desconsiderar nada menos que três automóveis porque não encontravam recibos da aquisição nem, aliás, os próprios carros.

Após o fracasso de Magical mystery tour, a probabilidade de os Beatles se dirigirem novamente em outro filme (e conseguirem a distribuição) variou entre pouca e nenhuma. No entanto, ainda deviam um filme à United Artist, pelo contrato assinado para Help! e A hard day’s night. Antes de morrer, Brian, por sorte, fez um arranjo pelo qual “The Beatles” estrelariam um desenho animado. Al Brodax, um americano que produzia desenhos com os Beatles para programa de meia hora aos sábados de manhã na NBC TV, foi convidado a produzir Yellow Submarine. Quando viram o produto final, os Beatles ficaram fascinados que concordaram em atuar na seqüência final do filme.

Isso acabou sendo uma faca de dois gumes – Brodax se lembra de Ringo tão baratinado que não conseguia fazer mais nada a não ser andar em círculos, até que finalmente se encontrou e pôde trabalhar -, mas quando o filme foi lançado, em meados de 1968, revelou-se uma produção encantadora. Nenhum crítico o confundiu com grande arte, mas mesmo os mais críticos ficaram desarmados diante de seu apelo fácil e divertido.

A reação mais interessante veio do New York Times, onde a crítica de cinema Renata Adler muito discretamente sugeriu que os espectadores deviam ir de cabeça feita. Ela escreveu que a qualidade particular de Yellow Submarine (um “sentido de percepção cristalina”) era “certamente acessível à pessoa que não estejam ligadas, e isso é raro num ambiente urbano repleto de estímulos. Certamente não há motivo para ver Yellow Submarine, como qualquer coisa boa, bêbado. Há bastante tempo está se percebendo que um barato ocasional ajuda a entender melhor a música; e o cinema, cada vez mais, é uma forma intensamente musical – isto é, as platéias de Yellow Submarine têm sido em muito maior medida, não estupidificadas ou embrutecidas como as ‘platéias de três martínis’, mas sim abertas, receptivas e precisas em suas respostas”.

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Os Beatles voltavam ao estúdio; e o primeiro produto de seu novo selo era avassalador – o compacto Hey Jude/Revolution, dois sucessos de lado A. Jude reflete o sofrido rompimento de Paul com Jane Asher. Além de ser uma das raras baladas em que Paul exprime diretamente emoções ao invés de sentimentalizar sobre elas, Jude violentou os parâmetros da rígida programação das rádios; seus 7 minutos e 11 segundos de duração permanecem até hoje como o mais longo sucesso num compacto.

Nesse sentido, pelo menos, a experiência da Apple parecia funcionar; ela dava aos Beatles uma oportunidade para romper as regras da programação pop, e eles, por serem quem eram, fizeram isso com muita classe. No entanto, as sessões de gravação de seu primeiro álbum no selo Apple – formalmente intitulado The Beatles, mas conhecido em toda parte como “o Álbum Branco” – não foram em absoluto tranqüilas. Durante elas, ocorreu a primeira separação dos Beatles.

Curiosamente, foi Ringo o primeiro a sair. Uma das razões disso pode ter sido, como sugere Hunter Davies, que o fim das excursões tenha sido pior para ele que para os outros. Paul e John estavam sempre envolvidos no lado técnico de suas gravações, e George – mesmo tendo de brigar com Paul por mais espaço nos discos – estava sempre atarefado em suas próprias composições. Ao vivo, Ringo era o quarto beatle, mas no estúdio era uma espécie de estepe, sempre à disposição e à espera da próxima gravação em que – como os arranjos dos Beatles se tornavam mais complicados e sofisticados – sua bateria iria desempenhar um papel em geral menos proeminente. A frustração, assim, era inevitável, mas amigos de Ringo dizem que era agravada pelas ásperas críticas de Paul à técnica de Ringo – tendo chegado ao máximo quando Paul sugeriu que ele mesmo iria tocar bateria em suas composições.

A separação durou apenas uma semana, e Ringo voltou, com evasivas sobre “desacordos musicais” e declarando que “Paul é o maior contrabaixista do mundo. Mas também é muito obstinado; faz tudo sempre para que as coisas saiam do jeito dele”. Quando Ringo voltou, encontrou a bateria enfeitada com flores: era a forma de Paul lhe dar as boas-vindas.

Também encontrou, instalada no estúdio, a cama de Yoko Ono.

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Yoko – uma artista conceptual ambiciosa, sempre inteligente e às vezes brilhante – não se parecia com nada que os Beatles tivessem conhecido antes. Jane Asher mantivera uma certa independência durante o longo relacionamento com Paul, mas as mulheres dos Beatles eram decididamente caseiras. As groupies – as outras mulheres de suas vidas – eram tão descartáveis como lenços de papel. Yoko era algo totalmente diferente.

John conheceu-a numa exposição que ela fez na Indica Gallery, em Londres, em 1966. Ficou fascinado – primeiro por seu trabalho, depois por ela. Tornaram-se amigos, iniciando uma correspondência a longa distância durante as estadas dela nos EUA e a dele na Índia. Mais tarde, contrariando a prática normal entre os Beatles, ele se apaixonou primeiro por ela.

Para John, ela era uma revelação. Ele tinha começado a vislumbrar uma nova causa quando lera sobre o movimento feminino. Em Yoko, que era capaz de ombrear com ele intelectualmente, encontrou o movimento personificado. “Não sei como foi que aconteceu”, disse John, “mas percebi que ela sabia tudo o que eu sabia – até mais, provavelmente -, e aquilo saia da cabeça de uma mulher; isso me balançou. Era como encontrar ouro ou coisa do gênero. Enquanto ela falava eu ia me ligando, e a discussão chegava a um nível que me deixava cada vez mais baratinado. Quando ela ia embora, eu voltava para aquela espécie de subúrbio mental. Até a gente se encontrar de novo, e aí minha cabeça se abria novamente como numa viagem de ácido”. Parece até certo ponto engraçado que, considerando o aventureirismo sexual dos Beatles, ela chocasse profundamente a sensibilidade dos rapazes.

Ela e John tornaram-se amantes, após dois anos de relacionamento platônico, na casa de John. O casamento dele com Cynthia estava cada vez mais desgastado. Ela estava de novo na Espanha, e, como ele declarou à Rolling Stone, “achei que era hora de ver se eu podia conhecer (Yoko) um pouco mais; assim, subimos para o meu escritório e toquei para ela umas gravações que eu tinha feito, coisas baratinantes, outras engraçadas, e um pouco de música eletrônica. Ela gostou daquilo e então disse: ‘Vamos fazer uma coisa dessa juntos’. Assim nasceu Two virgins. Começamos à meia-noite, estava amanhecendo quando acabamos, e então fizemos amor. Foi muito bonito”.

Acharam tão bonito que não puderam esperar para contar ao mundo; o que fizeram lançando Two virgins em novembro de 1968 – o mesmo mês do Álbum Branco. Two virgins se fez notar não só por sua música (dois lados com ruídos que parecem pássaros gorjeando, gritos, piano, falação, guitarra e espirros), mas principalmente pela capa. Nela, abraçados e nus, de frente para nós, encontravam-se dois amantes. E, sem nenhuma ambigüidade, ali se via um pênis beatle.

A EMI se recusou a fazer a distribuição do disco. Outras companhias concordaram em tentar, mas dento de um envelope marrom. O que também não adiantou; milhares de cópias foram apreendidas por obscenidade. Aquilo não era mais “uma loucura daqueles cabeludos divertidos”, e muitos dos fãs mais jovens dos Beatles – junto com seus pais – ecoaram o sentimento expresso numa canção oportunista lançada então: John, you went too far this time (“John, desta vez você foi longe demais”). O comentário de Paul foi bem mais profundo e menos comercialmente inspirado: “John está apaixonado por Yoko, e não está mais apaixonado por nós três”.

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Mesmo assim, todos os Beatles – menos John, aparentemente – acharam Two virgins mais tolerável que a idéia de ver Yoko como o quinto beatle. Embora fosse arrogantemente segura de sua genialidade, ela era, em relação ao conjunto, um retalho de pano para aplicar onde não havia o que remendar. Os outros desejavam vê-la à distância; não agüentavam vê-la acompanhar John ao banheiro dos homens para não interromper uma conversa, por exemplo. E, quando ele tentou impor as sugestões musicais dela ao trabalho do grupo, passaram a considerá-la uma ameaça.

Tendo levado o fora de Jane e John, Paul não ficou sozinho muito tempo. Após um curto caso com Francie Schawartz (ela saiu da cama dele para a máquina de escrever depressa demais), se ligou em Linda Eastman. Ela vinha do mesmo lugar que Yoko – Scarsdale, onde os livros do colégio registram que era “muito namoradeira” -, mas suas carreiras não podiam ser mais divergentes. Yoko era uma artista, não importando se boa ou má; Linda, embora gostasse de fotografar, era mais conhecida como groupie (é uma pessoa que busca intimidade emocional e sexual com um músico, celebridades e/ou pessoas públicas em geral.).

Mas era dela, ao que tudo indica, que Paul precisava exatamente – ou pelo menos o que desejava. Ela era um exemplo extremo da mulher dependente dos homens, e Hunter Davies, com agudeza, especulou que esse fosse talvez seu maior atrativo: “Sempre julguei que uma fã ardorosa seria a última coisa que ele desejaria, tendo sido perseguido por elas tanto tempo. O que não percebi é que, em sua vida fechada com John, cheio de cinismo e brutal honestidade, e com Jane Asher, tão firme como Paul em suas opiniões, poderia ter se sentido reprimido e constrangido. Linda veio na hora certa – quando John se retirava – e encorajou Paul a não se sentir inferior, a ser homem de verdade – ele podia fazer tudo o que tentasse”.

Assim, John e Paul, cada qual a seu modo, ofereceram em sua relativa maturidade um testemunho da crença que norteara todo o seu primitivo trabalho como compositores e intérpretes: o primado do amor romântico. Viver esse mito era muito difícil, contudo, pois o romance se chocava com outro mito muito absorvente: The Beatles. Nesse contexto, a observação de Paul sobre o amor de John por Yoko é uma análise dolorosamente correta do problema com que os Beatles se defrontaram: o conflito entre a existência de casais e as exigências de uma atividade cooperativa de grupo. A dor na separação dos Beatles é uma prova de quão profundamente acreditavam nos dois lados da equação.

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O Álbum Branco foi lançado, com a cota habitual de duas composições de Harrison por disco, e foi imediatamente para o primeiro lugar. Mas, como diria John mais tarde, “ali não há nada de música dos Beatles. É sempre John e a Banda, Paul e a Banda, George e a Banda…”

Pouco depois de o Álbum Branco chegar à primeira colocação entre os mais vendidos, John disse a um repórter que “a Apple está perdendo dinheiro. Se continuar assim vamos a falecia em seis meses”. Isso era exagero, claro, mas provocou um telefonema intercontinental a John de Allen Klein, Klein, um hábil contador de Nova York que fez carreira provando que muito dinheiro em mãos das gravadoras devia ser pago aos clientes dele, tais como os Rolling Stones, disse que gostaria muito de ajudar a pôr a Apple em ordem.

Ele não era o único a ter essa idéia, nem o primeiro. O futuro sogro de Paul, Lee Eastman, era um advogado importante em questões internacionais de direitos autorais. Junto com seu filho John, tinha feito da Eastman um dos escritórios jurídicos mais bem-sucedidos de Nova York. Após um jantar em casa dos Eastman, Paul mencionou suas frustrações com a Apple. Eastman disse que teria muito prazer em ajudar e imediatamente mandou seu filho para Londres.

John Eastman não demonstrou muito conhecimento sobre música pop, mas verificou que a morte de Brian Epstein deixará os Beatles numa situação fiscal problemática. A firma de agenciamento de Brian, a Nems, continuava a existir, dirigida por Clive, irmão de Brian, que desejava mais que tudo voltar ao negócio de móveis. Ela ainda continuava a levar 25 por cento dos ganhos dos Beatles. O mais grave é que a firma ia ser severamente atingida pelos impostos sobre espólio de Brian. A solução de Eastman era elegantemente simples: os Beatles deveriam arranjar um empréstimo (na forma de um adiantamento sobre direitos a receber da EMI), usando-o para comprar a Nems. Por 1 milhão de libras, não apenas podiam recuperar os 25 por cento, como também reclassificar sua carga de impostos numa categoria mais facilmente controlável de ganhos de capital. Ele explicou a situação aos Beatles, que concordaram em seguir seu conselho; além disso, todos eles concordaram em nomeá-lo conselheiro da Apple. Clive Epstein já tinha aceito a proposta de Eastman quando Klein chegou a Londres.

Klein se encontrou primeiro com John e Yoko. Durante uma longa conversa no Dorchester Hotel, ele quase não falou em dinheiro; em vez disso, falou sobre os Beatles – sua música e sua posição no mundo pop. John saiu convencido de que Allen Klein era a solução para todos os seus problemas. Quando Linda Eastman as novidades, seu primeiro comentário foi: Que merda!”

Embora seus pareceres financeiros com freqüência pudessem coincidir, Klein e os Eastman representavam estilos radicalmente diferentes. Lee Eastman tinha anglicizado seu nome (seu sobrenome original era judeu, “Epstein”) ao se formar em direito em Harvard; já Klein permanecia ativo membro comunidade judaica. Eastman veraneava no campo, nos Hamptons; Klein gostava de Miami e Las Vegas. John, George e Ringo gostavam de Klein? Paul amava Linda.

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Paul saíra cedo da primeira reunião com Klein, mas na segunda – à qual John Eastman também compareceu – levou a sério as questões que Klein colocava sobre a compra da Nems. Já que o “empréstimo” de 1 milhão de libras da EMI era na verdade um adiantamento sobre rendimentos, era taxável, o que significava que não teriam o milhão líquido para a compra. Mas, acrescentou Klein, podiam obtê-lo. Tudo dependia do montante total dos direitos a receber e quais os impostos possíveis. Ele achava que o negócio devia ser adiado até ter tempo de levantar o quadro completo da situação. Os Beatles e Eastman concordaram com ele, e na mesma tarde Klein obteve de Clive Epstein a garantia de que a venda da Nems suportaria um adiantamento de três semanas. Duas semanas mais tarde, contudo, Epstein vendeu a Nems para um truste de investimentos – devido, disse ele, a uma carta que recebeu do conselheiro John Eastman. Mais tarde, Clive descreveu Eastman como “jovem demais para negócios daquele Nível”.

Mesmo com uma corporação de tubarões às dentadas sobre suas fortunas, os Beatles lutavam para fazer música. Eles estavam nos Twickenham Film Studios para gravar um álbum de “volta às raízes”, o velho e básico rock ‘n’ roll que os inspirara uma década antes. À tensão normal das gravações – e à pressão anormal das finanças – acrescia uma terceira agravante: a presença constante e zumbidora de câmeras a filmar um documentário com os fabulosos Beatles fazendo um disco.

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Aquilo não era tão fabuloso. Cerca de uma semana após o início das filmagens, George tornou-se o segundo beatle a deixar o grupo. Ele tinha voltado de uma curta turnê com Eric Clapton pelos EUA, cheio de autoconfiança e carregado de novas composições. Rapidamente descobriu que Paul não ficara impressionado: “O trabalho conjunto (nos EUA) constratava demais com a atitude de superioridade musical que Paul tinha há anos em relação a mim”, disse ele mais tarde. “Em circunstâncias normais, eu não ligaria, mesmo que isso quisesse dizer que minhas músicas não iam ser gravadas. Eu estava com o moral alto, mas logo vi que ele era o velho Paul de sempre. Diante das câmeras, justo quando estavam filmando, Paul começava a me criticar pelo jeito como eu tocava.”

Paul realmente fazia isso, mas não necessariamente sentindo-se superior. No máximo, era por desespero. Na falta de Brian, e com John totalmente monopolizado por Yoko, Paul tinha de encarar o fim dos Beatles ou lutar para mantê-los juntos. Ele carregava esse peso com bastante dignidade, como se vê por este trecho de diálogo gravado no estúdio:

Paul: “O que eu quero dizer é que temos sido muitos negativos desde que perdemos Epstein. É por isso que nós todos, um por vez, ficamos cheios do conjunto, sabe? Isso é um pouco de fraqueza. É como se você estivesse crescendo, aí seu pai vai embora num ponto da sua vida e você tem de se virar sozinho. Papai foi embora. Acho então que devemos voltar pra casa, ou fazer as coisas direito.

“Nós precisamos é de disciplina. Epstein disse: ‘A ordem é vestir terno e gravata’, e nós fizemos isso. Estávamos sempre um pouco contra aquela disciplina. Mas agora é bobagem lutarmos contra a disciplina que nós mesmos temos de nos impor. É por isso que estamos sempre fazendo o mínimo possível. Mas eu acho que precisamos de um pouco mais de disciplina se quisermos continuar.”

George: “Bom, se é desse jeito que se faz alguma coisa, eu não quero fazer nada”.

E, ao que parece, ninguém queria. Ringo e Paul praticamente estavam sós como portadores da chama dos Beatles. E, como a banda estava tentando dar uma sensação de trabalho “ao vivo” no filme, as tensões ficavam cada vez piores; um de cada vez errava uma nota ou perdia o ritmo, e os quatro tinham de recomeçar a música. Para recomeçar de novo em seguida.

Finalmente, pela primeira vez em sua carreira, desistiram e foram para casa, deixando o filme, o livro, as músicas – e, talvez, os Beatles para trás.

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A 12 de março de 1969, Paul e Linda se casaram. (George e Patti foram detidos por posse de drogas no mesmo dia, pelo mesmo oficial que detivera John e Yoko no outono anterior). Escaparam da multidão às portas do cartório de Marylebone e desapareceram do público. Oito dias depois, em Gibraltar, John e Yoko se casaram, numa cerimônia ainda mais discreta. Mas não desapareceram do público.

Ao contrário, foram para o Amsterdam Hilton, e fizeram um comunicado à imprensa convidando os repórteres para um “happening” que teria lugar em sua cama. Imaginando o óbvio e suspeitando o pior, a polícia de Amsterdam emitiu um comunicado prevenindo que “se o público for convidado para tal ‘happening’, a policia seguramente vai agir”.

Tudo o que John e Yoko fizeram foi anunciar que planejavam deixar crescer o cabelo e ficar na cama por uma semana pela paz, como “um protesto contra o sofrimento e a violência do mundo”. Durante a lua-de-mel, também apresentaram o “bagism” (“saquismo”), durante uma entrevista coletiva que deram dentro de um saco na Áustria, plantaram glandes (fruto do carvalho) “pela paz” em frente a uma catedral inglesa, e se apresentaram na cama (era o “bed-in”) outra vez no Canadá.

No meio de tudo isso, John ainda achou tempo para compor The ballad of John and Yoko, que logo desejou lançar como compacto dos Beatles. A dar crédito à versão de que foi o amor de John por Yoko que acabou com os Beatles, a ironia desse desejo não era pouca. A princípio, ele pareceu de impossível realização; Ringo estava trabalhando nas filmagens de The Magic Christman, e George, talvez estrategicamente, não poderia ser encontrado. Porém, Paul sabia o que significava o amor, ele amava Linda, afinal de contas, e John. Assim, foi ele quem gravou a bateria, além do baixo, enquanto John fazia as duas guitarras. John retribuiu esse gesto com Give peace a Chance, que gravou com a Plastic Ono Band, cuja autoria foi creditada “Lennon/McCartney)”.

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Todas essas luas-de-mel terminaram abruptamente, quando Dick James, há tanto tempo o dinâmico editor das canções da dupla, anunciou que estava vendendo a Northern Songs, que detinha os direitos sobre as composições de Lennon/McCartney, para um truste do mundo das diversões dirigido por Sir Lew Grade. Durante o bed-in no Canadá, John ouviu uma pergunta sobre essa venda e logo pôs de lado o assunto da paz para revelar sua posição. “Eu não vendo. É meu trabalho, são as minhas músicas, e quero conservar uma parte do produto final. Nem vou telefonar a Paul; sei muito bem que ele pensa do mesmo jeito”.

John estava certo. Nessa batalha, pelo menos, ele e Paul estavam juntos. Prepararam-se para uma longa luta que, por pouco tempo, colocou até Klein e Eastman do mesmo lado. Klein estava ocupado também com outros negócios dos Beatles. Renegociou o contrato do grupo com a EMI – conseguindo o maior percentual de direitos autorais da história da indústria fonográfica – e mais tarde obteve um arranjo terminado com o controle da Nems sobre os rendimentos dos Beatles. Apesar de sua aliança com os Estman e sua desconfiança verbal em Klein, Paul assinou ambos os acordos. De fato, embora a batalha da Northern Songs se arrastasse interminavelmente – e apesar de os Beatles mais tarde perderem a causa -, estavam bastante unidos em meados de 1969.

Tirando partido do momento, Paul reuniu-os no estúdio novamente. Dessa vez, tudo fluiu tão tranquilamente que Abbey Road foi gravado mais rapidamente que qualquer outro álbum desde Help! E o conjunto inteiro tocava na maioria das faixas, além de os vocais serem feitos pelas vozes de todos, ao invés de um só gravando em diversos canais. Embora ele contenha a cota habitual de canções de Harrison, uma delas – Something – foi lançada como lado A de um compacto e se tornou um imenso sucesso. Tudo, pela primeira vez desde a morte de Brian, parecia ir bem. Foi então que John anunciou: “Quero o divórcio”. Ele estava, como disse enjoado.

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Nunca houve uma resposta adequada a essa declaração, e, com a aturdida aceitação de Paul, os Beatles morreram. Contudo, todos concordaram em guardar segredo dobre o “divórcio”, talvez na esperança de que o rasgão pudesse ser remendado de alguma forma.

Mas os fãs pareciam menos preocupados com o fim dos Beatles que com a morte de Paul. O rumor parece ter começado em Detroit, onde uma estação de rádio deu força à história, e onde o Michigan Daily fez um “obituário” sobre Abbey Road. Sobravam pistas: na capa de Abbey Road Paul está descalço e fora do passo em relação aos outros, seu cigarro está na mão errada, e a chapa do Volkswagen estacionado é 28IF (“28SE”) – a idade de Paul se ele estivesse vivo.

Isso foi apenas o começo; outros ensandecidos pesquisadores da verdade encontraram a prova de um sangrento acidente de trânsito em 09 de novembro de 1966, o qual, é claro, explicava por que o conjunto tinha parado de viajar para enfurnar-se no estúdio de gravação, onde a ausência de Paul podia ser disfarçada com trucagem eletrônica. Tão grande foi a busca de provas que Sgt. Pepper (e até Magical mystery tour) reapareceu nas listas de mais vendidos, e a Capitol Records divulgou que os Beatles estavam tendo a maior vendagem mensal de sua história. Será preciso dizer que a Capitol nada fez para dissipar os rumores?

Entretanto, Paul estava muito vivo (e com apenas 27 anos). Tinha construído um estúdio de gravação na casa na Escócia, onde estava ocupado, com Linda, em gravar um álbum; ele tocava todos os instrumentos, ela fazia algumas segundas vozes. Pouco depois de o disco ser lançado (quase ao mesmo tempo que Let it be, o abandonado projeto de volta às raízes, que  originalmente se chamara Get back), Paul confirmou sua existência ao anunciar publicamente que estava deixando os Beatles.

Ao trair o segredo combinado, Paul estava obviamente obtendo vantagens promocionais, mas seria muito cinismo explicar apenas dessa forma a sua atitude. Ele tinha lutado ao máximo para manter a união, e tinha um certo direito de assumir a dolorosa decisão de rompê-la finalmente.

Não há dúvida de que isso lhe doeu. Mesmo em casos fadados ao desenlace, ocorre quase sempre uma desesperada ambivalência (é um estado de ter simultânea, sentimentos conflitantes para uma pessoa ou coisa. De outro modo, ambivalência é a experiência de ter pensamentos e emoçõessimultaneamente positivas e negativas para alguém ou alguma coisa. Um exemplo comum de ambivalência é o sentimento de amor e ódio para uma mesma pessoa.) no rompimento. Uma pessoa para fugir a uma relação e ficar de nunca voltar a ela é levada, no final, a uma crueldade que prova que o amor ainda existe. O amor não leva a separações tranqüilas, mas a fraturas violentas.

E Paul certamente lascou um osso numa das respostas que deu a si mesmo na “entrevista” que publicou com seu LP solo. Em qualquer outro contexto, ela poderia ser simplesmente mesquinha; mas, ao relembrar a música dos quatro, soa trágica.

PERGUNTA : “Você sentiu falta dos outros Beatles e de George Martin? Não houve um momento, por exemplo, em que você pensou: ‘Gostaria de ter Ringo aqui, nesta passagem’?”

RESPOSTA: “Não.”

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Digitado por Marina Sanches – @sancmarina.

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Uma ideia sobre “HISTÓRIA THE BEATLES.

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